Alimentação Natural Para Cães e Gatos: Por Que Software, Suplementação e Legislação Separam Ciência de Achismo
9 de julho de 2026
A formulação “na mão” e a dieta crua viraram modismo — mas a ciência da nutrição e a lei brasileira contam outra história.

A alimentação natural deixou de ser nicho e passou a ocupar o centro da conversa entre tutores e profissionais. O problema é que, junto com o interesse, cresceu também o volume de desinformação. Foi esse o tema do episódio do Pet Food Podcast em que a host Kellen Oliveira recebeu a médica veterinária e nutróloga Alessandra Giardino, com mais de 26 anos de atuação clínica e seis anos dedicados à formulação de dietas naturais. A conversa expõe, com base técnica, a linha que separa a nutrição baseada em ciência do achismo de internet.
Não existe formulação sem software: o mito dos percentuais fixos
A primeira fronteira entre ciência e achismo aparece na formulação. Segundo Alessandra, a ideia de uma receita pronta — “25% de carboidrato, 35% de proteína” — simplesmente não existe. “Isso é lenda de internet”, afirma. A justificativa é técnica: uma dieta equilibrada envolve dezenas de variáveis interdependentes, e o balanço entre minerais é particularmente sensível. Ao ajustar o cálcio manualmente, o formulador frequentemente desequilibra o fósforo — e a relação cálcio-fósforo é determinante para a saúde óssea e renal. Por isso, a formulação confiável exige software específico, capaz de calcular as exigências de cada nutriente para o estágio de vida e a condição clínica do paciente. A faculdade, lembra a convidada, não forma o profissional para isso: é necessária pós-graduação, e cursos de fim de semana não capacitam para a prática.
Extrusada x natural: umidade, biodisponibilidade e o porquê da suplementação
Um dos pontos mais didáticos do episódio é a diferença técnica entre a ração extrusada e a dieta natural. A ração é feita de farinhas: a indústria desidrata carne, ossos e vegetais até virarem pó para permitir a colagem dos pellets. O produto fica seco e altamente calórico — uma ração pode concentrar de 3.000 a 3.500 kcal, o que faz o animal precisar de pouco volume para atingir suas necessidades. A dieta natural, ao contrário, é úmida: o pet come um volume maior para chegar às mesmas calorias.
Há ainda a questão da biodisponibilidade. Alimentos secos e não cozidos tendem a ser menos biodisponíveis; já a proteína hidrolisada — cozida e “aberta” em mais aminoácidos — aumenta o aproveitamento, princípio usado nas rações hipoalergênicas. Mas o recado central é inegociável: tanto a ração quanto a dieta natural precisam ser suplementadas. Na extrusão, o suplemento de cálcio, fósforo, minerais e vitaminas é adicionado na última camada. Se a ração já chega suplementada, a comida natural também precisa chegar. “Se não suplementar, não chega nos nutrientes que eles precisam”, resume a nutróloga.
O que a legislação brasileira realmente exige
Ao contrário do que muitos imaginam, existe regulamentação. Alessandra, pós-graduada em Ciência e Tecnologia de Alimentos, detalha que o MAPA é o órgão fiscalizador e que as fábricas de alimentação natural são isentas de registro — mas não de obrigações. Elas precisam cumprir boas práticas de fabricação, rotulagem e rigor sanitário, enviar relatório mensal de produção e respeitar a proibição da comercialização de carne crua. O arcabouço está na Lei nº 6.198/74 e no Decreto-Lei nº 6.296/07. Quem pode formular são apenas veterinários e zootecnistas capacitados, com pós-graduação; produzir e vender é permitido a qualquer pessoa, desde que cumpra as normas sanitárias — idealmente com um responsável técnico à frente da operação.
O risco que ninguém vê: zoonoses e o erro dos pequenos produtores
Para Alessandra, o maior perigo da alimentação natural mal conduzida não é nutricional: são as zoonoses. Ela cita um caso ocorrido fora do Brasil em que a alimentação crua disseminou tuberculose bovina para oito felinos — e quatro responsáveis também desenvolveram a doença, por falta de higiene no preparo. O erro mais comum dos pequenos produtores é negligenciar os manuais: as Boas Práticas de Fabricação (BPF) e os Procedimentos Operacionais Padrão (POPs). Limpeza de caixa d'água, dedetização e a separação física das áreas de manuseio — recepção do alimento cru, lavagem e preparo — são exigências básicas para evitar contaminação cruzada. A fiscalização do MAPA, alerta a convidada, costuma ser reativa: só ocorre mediante denúncia.
Cão x gato: por que a dieta vegana não serve para felinos
Entre os modismos mais perigosos está a dieta isenta de carne. Aqui, a resposta da nutróloga depende da espécie. Para cães, é possível formular dietas vegetarianas com suplementação adequada. Para gatos, jamais. O felino é um carnívoro estrito, com metabolismo neoglicogênico, que depende de carne e de aminoácidos para sustentar todo o seu metabolismo. Não se trata de preferência alimentar, e sim de fisiologia — ignorar isso é colocar o animal em risco.
Da teoria à clínica: o que muda na prescrição
O episódio mostra que a nutrição bem aplicada é, na prática, ferramenta clínica. Alessandra relata o caso do Kid, um Yorkshire de apenas 1,3 kg que, aos 13 anos, desenvolveu doença cardíaca. Com dieta natural, taurina e nutracêuticos antioxidantes, a tosse cardíaca regrediu. Quando o paciente passou a perder massa muscular, a veterinária recorreu ao canabidiol para reativar o sistema endocanabinoide e estimular o apetite. O resultado: o cão viveu dos 13 aos 17 anos com qualidade de vida. A nutróloga também relata pacientes com hiperlipidemia, triglicérides e colesterol elevados normalizados apenas com alimentação natural, sem medicação.
Olhando adiante, Alessandra projeta que, nos próximos cinco a dez anos, doenças hoje pouco diagnosticadas tendem a aparecer com mais frequência — como hipotireoidismo secundário e problemas renais ligados ao desequilíbrio entre cálcio e fósforo — justamente como consequência de dietas naturais malformuladas. A mensagem para o profissional é clara: alimentação natural é uma alternativa válida e poderosa, desde que conduzida com software, suplementação, higiene e respaldo legal.
Ouça o episódio completo
Quer entender a fundo o que separa a ciência do achismo na alimentação natural de cães e gatos? Kellen Oliveira e Alessandra Giardino destrincham formulação, legislação, segurança de alimentos e casos clínicos reais neste episódio do Pet Food Podcast. 🐶🐱🎙️ Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.
