Pet Food

    Antioxidantes naturais do bioma brasileiro em pet food: composição, processo e evidências de campo

    30 de outubro de 2026

    Substituir o sintético pelo natural vai além de seguir tendências: exige entender a planta, o blend e a linha de produção

    Antioxidantes naturais do bioma brasileiro em pet food: composição, processo e evidências de campo

    A substituição de antioxidantes sintéticos por alternativas naturais deixou de ser pauta de nicho na indústria pet food. Há dez anos, o tema praticamente não aparecia no Brasil e, quando aparecia, vinha associado a instabilidade e custo elevado. Nos últimos cinco anos, a pressão do mercado, a intensificação das pesquisas e a adoção em larga escala no mercado internacional mudaram esse cenário: hoje já existem ingredientes e alimentos completos estabilizados exclusivamente com antioxidantes naturais. A pergunta técnica, porém, permanece: o que muda quando o formulador troca uma molécula sintetizada para um fim específico por um extrato vegetal complexo?
    Essa questão guiou a conversa entre o Dr. Ricardo Vasconcellos e Wolney Longhini, CEO da Terpenia Bioinsumos, empresa de Piracicaba que desenvolve aditivos a partir de óleos essenciais de plantas do bioma brasileiro.

    Por que a ração pet exige mais da proteção antioxidante

    O ponto de partida é a matriz. Rações para cães e gatos têm teor de gordura mais elevado do que rações de produção e permanecem muito mais tempo entre a fábrica e o comedouro. Enquanto a ração de frango é consumida em 15 dias a um mês, a ração pet pode levar de seis meses a um ano até o consumo. Esse intervalo amplia a exposição à oxidação lipídica, que compromete o valor nutricional e degrada sabor e odor, atributos críticos para cães e gatos.
    Foi essa característica que levou a Terpenia ao pet food. O blend de óleos essenciais havia sido concebido por pesquisadores para conservar a carne de frango. Nos ensaios, mostrou efeito tanto na ração quanto no perfil lipídico do próprio animal, sinal de incorporação fisiológica. Para o avicultor, porém, a maior durabilidade da carne não gerava retorno, já que esse ganho só se materializa depois do frigorífico. A combinação de alta carga lipídica e longa vida de prateleira tornou o pet food a aplicação mais coerente.

    Multifuncionalidade: o mecanismo que diferencia o natural

    Aditivos sintéticos costumam ser desenhados para um alvo. Extratos vegetais, ao contrário, são misturas complexas de terpenos e outros metabólitos com efeitos simultâneos. No caso do blend discutido no episódio, os resultados de laboratório já indicavam ação bactericida, fungicida e antioxidante sobre a oxidação lipídica. O Dr. Ricardo lembra que mesmo antioxidantes sintéticos apresentam algum efeito biológico além da proteção do alimento, o que torna difícil separar as duas dimensões. Nos naturais, essa sobreposição é ainda mais intensa e exige estudos de absorção, dose efetiva e segurança.

    O óleo essencial não é uma commodity

    Um dos pontos mais técnicos da conversa desmonta uma simplificação comum no mercado: a ideia de que o óleo de determinada planta é um ingrediente padronizado. Segundo Wolney, análises cromatográficas de óleos com o mesmo nome podem ser completamente diferentes e, provavelmente, não entregarão os mesmos resultados. Pequenas mudanças de manejo alteram o perfil de terpenos, a ponto de a colheita ser definida pela hora do dia, e não pelo mês, para maximizar determinado marcador.
    Por isso, a especificação correta não é "usamos o óleo essencial X", mas "usamos o óleo essencial X produzido por este produtor, neste ambiente, com este protocolo". Na prática, isso exige fornecedores capazes de produzir em volume sem perder as características da produção experimental, etapa que Wolney considera a mais difícil da cadeia.
    A segunda camada é o blend. Os óleos isolados não se comportam como quando misturados, e a combinação confere estabilidade e previsibilidade de resultado. O desenvolvimento segue uma sequência rigorosa: revisão bibliográfica, modelagem matemática para prever a melhor mistura, testes de bancada in vitro, ensaios laboratoriais, protótipo e validação em campo. É nessa transição entre o laboratório e o campo que muitas pesquisas acadêmicas sólidas param, e foi para ocupar esse elo que a Terpenia se posicionou como ponte entre a ciência e o mercado.

    Evidências: da matéria-prima ao animal

    Antes do alimento completo, o blend foi testado em matérias-primas de alto teor lipídico, como farinha e óleo de vísceras, com eficácia como conservante. Em reunião na USP de Pirassununga, o professor Márcio Brunetto sugeriu ampliar o escopo e avaliar o efeito no próprio animal. Seu raciocínio partia de uma constatação, o envelhecimento da população de cães, e de uma hipótese fisiológica: a de que o blend poderia reduzir a oxidação derivada da inflamação associada à idade. Segundo Wolney, a prova confirmou a hipótese.
    Dois achados ganharam destaque. O primeiro foi a palatabilidade: nos ensaios conduzidos pela professora Erika, em Uberaba, os cães da universidade se juntavam na janela do laboratório sempre que a ração era aberta, e uma ração fabricada havia mais de um ano seguia altamente atrativa. O segundo foi um relato de caso apresentado por pesquisadores da USP em congresso na Irlanda: uma cadela com câncer de mama disseminado, fora do ensaio, recebeu a mesma ração aditivada da companheira para não comprometer o estudo e teve recuperação pós-operatória considerada notável pela equipe veterinária. Trata-se de uma observação isolada, que não substitui ensaio controlado, mas reforça a hipótese de efeito anti-inflamatório tanto na oxidação ligada ao envelhecimento quanto em processos inflamatórios agudos.

    Implicação clínica: antioxidante como aliado da longevidade

    Cães idosos acumulam doenças crônicas e alterações cognitivas nas quais o estresse oxidativo participa. Como lembra o Dr. Ricardo, antioxidantes não salvam o animal, mas retardam o processo e auxiliam na manutenção da saúde. Para o veterinário e o nutricionista, a escolha do antioxidante deixa de ser apenas uma decisão de conservação do alimento e passa a dialogar com o manejo nutricional do paciente geriátrico, sempre com dose efetiva e segurança comprovadas.

    O que muda no processo: o limite dos 60 a 80 °C

    Se há um ponto em que o natural não é substituto direto do sintético, é a temperatura. Compostos de cadeias longas e complexas desnaturam sob calor elevado. Em farinhas e óleos, aplicar o óleo essencial nas mesmas condições do sintético, aplicado a 120 °C, não funciona: os óleos essenciais são extremamente voláteis e se perdem acima de 60 a 80 °C. Aplicados depois dessa etapa, o desempenho é expressivo.
    A consequência prática é rever o ponto de inclusão na linha e, como pontua o Dr. Ricardo, repensar as próprias condições do processamento de pet food, reduzindo o estresse térmico não só sobre aditivos, mas também sobre nutrientes sensíveis que hoje se perdem no processo.

    Registro: lista positiva e o debate regulatório

    No Brasil, Wolney descreve o registro em duas fases. A primeira é a inclusão do ingrediente na lista positiva do Ministério da Agricultura, que o define como admissível para determinadas espécies até determinados teores, com base em estudos sólidos. A segunda cabe ao cliente: o registro do aditivo ou da ração que incorpora o ingrediente. Wolney propõe discutir um caminho diferenciado para produtos naturais usados em doses semelhantes às encontradas na própria planta, como incentivo à transição, sem abrir mão do rigor em segurança.

    Uma revolução silenciosa

    A comparação feita no episódio é com o plantio direto, visto com desconfiança no Brasil dos anos 1980 e hoje praticamente universal. Para Wolney, os aditivos naturais seguem o mesmo caminho: exigem adaptação de linha, de processo e, muitas vezes, regulatória, mas atendem a uma demanda que ele considera irreversível. Quem se ajustar rapidamente vai crescer; quem ficar estagnado no modelo antigo vai ficar para a história.
    Para o profissional da nutrição pet, a mensagem é clara: adotar antioxidantes naturais vai além de seguir tendências. É uma decisão técnica que envolve origem e padronização da matéria-prima, comportamento do blend, ponto de aplicação no processo e evidência no animal. Uma decisão baseada em ciência, não em achismos.

    Quer ouvir os detalhes desta conversa? O Dr. Ricardo Vasconcellos recebe Wolney Longhini, CEO da Terpenia Bioinsumos, no novo episódio do Pet Food Podcast. 🐶🐱🎙️
    Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.

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