Avicultura

    Bacteriófagos na Avicultura: a Ferramenta de 100 Anos que Pode Resolver o Impasse dos Antimicrobianos

    29 de julho de 2026

    Fundadores da Phagen explicam como uma tecnologia descoberta há mais de um século pode reduzir a carga bacteriana em aviários sem destruir a microbiota da ave, e por que isso importa diante das novas restrições de exportação

    Bacteriófagos na Avicultura: a Ferramenta de 100 Anos que Pode Resolver o Impasse dos Antimicrobianos

    Num aviário com 35.000 aves, apenas 10% delas costumam carregar Salmonella no intestino. Tratar o lote inteiro com antimicrobiano resolve o problema da maneira mais desproporcional possível: compromete a microbiota das outras 90% para atacar uma minoria infectada. É esse o ponto de partida de Itamar Durli e Jhonatan Macedo Ribeiro, PhD, fundadores da Phagen, no Aviário Podcast: uma conversa sobre bacteriófagos, os vírus que infectam exclusivamente bactérias e que voltaram a ganhar espaço como alternativa de precisão aos antimicrobianos.

    O que é um fago e por que ele quase desapareceu da história

    Bacteriófagos, ou fagos, são o microrganismo mais abundante da face da Terra: existem onde quer que existam bactérias, inclusive na própria pele humana. Descritos há mais de 100 anos, foram amplamente estudados nas décadas de 1920 e 1930, inclusive no Brasil, onde um estudo da época documentou o uso de fagos contra Salmonella Gallinarum em aviários com excelentes resultados, publicado e reconhecido internacionalmente. O motivo do esquecimento posterior tem nome: penicilina. Diante de um produto biológico complexo de produzir em 1920, a chegada de um antimicrobiano barato, fácil de escalar e altamente eficaz (mesmo que bactérias resistentes à penicilina já existissem uma semana após sua descoberta) empurrou os fagos para segundo plano por décadas. Só a partir dos anos 90, com a escalada da resistência antimicrobiana, a pesquisa em fagos voltou com força no Ocidente.

    Onde o mundo já está mais avançado

    Segundo os fundadores da Phagen, o Brasil ainda está engatinhando no uso prático de fagos, sobretudo pela ausência de uma regulamentação específica. Já a Europa avançou consideravelmente, com destaque para França e Inglaterra, que trabalham pesquisa e desenvolvimento voltados à aplicação real de mercado. Mas é a Geórgia, país da ex-União Soviética, que está mais adiantado: lá, uma diarreia bacteriana pode ser tratada com um coquetel de fagos comprado diretamente em farmácia, com legislação específica que exige revisão do banco de fagos a cada seis meses para garantir eficácia contra as bactérias circulantes.

    Como funciona a seleção de um fago

    A Phagen trabalha desde 2019 mapeando e sequenciando bactérias e fagos, hoje com aproximadamente 230 bactérias sequenciadas geneticamente e um banco de mais de 1.800 microrganismos selecionados, voltado principalmente para o controle de Salmonella e E. coli. Como cada fago é altamente específico (um fago eficaz contra uma cepa não necessariamente funciona contra outra da mesma espécie), o produto final tende a ser um mix de vários fagos, ajustado à realidade bacteriológica de cada cliente ou região. É por isso que os fundadores pedem a colaboração de sanitaristas, veterinários e produtores: enviar isolados bacterianos das próprias propriedades ajuda a ampliar o banco e aumentar a precisão do produto final.

    A diferença central: preservar a microbiota

    O ponto mais prático da conversa é o contraste entre antimicrobiano e fago. Um antimicrobiano de amplo espectro elimina indiscriminadamente as bactérias presentes no intestino da ave, boas e ruins. Já um fago é desenhado para atacar apenas a bactéria de interesse, como a Salmonella, deixando toda a microbiota benéfica intacta. Num aviário onde só uma fração do lote carrega a bactéria patogênica, essa diferença evita prejudicar a microbiota das aves saudáveis, algo cada vez mais reconhecido como determinante para ganho de peso e conversão alimentar.

    Ausência e presença, não positivo e negativo

    Um ponto conceitual importante levantado por Itamar Durli: os testes bacteriológicos costumam ser descritos como "positivo" ou "negativo", quando na verdade indicam apenas "presença" ou "ausência" na amostra analisada. Duas propriedades com o mesmo resultado de presença podem ter cargas bacterianas radicalmente diferentes: uma com contaminação em 9 de 10 amostras, outra em apenas 3 de 10. O risco de disseminar essa bactéria adiante na cadeia produtiva é muito maior no primeiro caso, mesmo que ambas sejam tecnicamente "positivas". A função do fago é justamente achatar esses picos de positividade, mantendo a carga sempre no menor patamar possível.

    O que o fago realmente promete: mitigar, não eliminar

    Os fundadores da Phagen são categóricos: fago não elimina 100% de uma bactéria em ambiente real, isso só acontece em condições controladas de laboratório. Na prática de campo, a redução observada costuma ficar entre 3 e 4 log de carga microbiológica, o equivalente a mil a dez mil vezes menos bactérias levadas adiante na cadeia produtiva. Isso não substitui o antimicrobiano, pelo contrário, preserva essa ferramenta farmacológica para os casos de infecção mais severa, com alta mortalidade, em que seu uso realmente se justifica.

    A urgência regulatória e comercial

    Um dado citado no episódio reforça a urgência do tema: a resistência antimicrobiana é apontada como uma das maiores preocupações globais de saúde para 2050. No campo comercial, a partir de setembro, o bloqueio de exportação de carne para a Europa por uso de antimicrobianos torna o fago uma ferramenta estratégica: ao reduzir a carga bacteriana e, consequentemente, a necessidade de antimicrobiano na produção, o produtor se aproxima do cumprimento das exigências regulatórias de exportação sem abrir mão do controle sanitário.

    O que isso muda na rotina de quem decide protocolos sanitários

    Para o sanitarista, extensionista ou veterinário de cooperativa e agroindústria, a mensagem central é clara: o fago não chega para substituir a biosseguridade, o manejo ou o antimicrobiano, chega como uma ferramenta estratégica a mais, usada da maneira certa, no momento certo. A Phagen, inclusive, se coloca à disposição para apresentações técnicas a equipes de campo interessadas em entender melhor essa tecnologia.

    Quer entender como aplicar bacteriófagos no controle sanitário da sua granja ou cooperativa? Ouça o episódio completo do Aviário Podcast com o Dr. Welinton Molinetti, Itamar Durli e Jhonatan Macedo Ribeiro, PhD. 🎙️🦠 Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.

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