Suinocultura

    Bem-estar na suinocultura brasileira: como normas, ciência e pessoas redesenharam a cadeia em duas décadas

    30 de outubro de 2026

    Da insensibilização no frigorífico à gestação coletiva na granja, a trajetória que levou o Brasil à IN 113

    Bem-estar na suinocultura brasileira: como normas, ciência e pessoas redesenharam a cadeia em duas décadas

    Há cerca de 20, 25 anos, quem entrava em um frigorífico brasileiro para trabalhar com qualidade de carne encontrava um cenário de informação precária sobre comportamento animal, pouca harmonização entre indústria e serviço veterinário oficial e métodos de insensibilização rudimentares, com uso de marreta em plantas menores. Foi esse o ponto de partida da Dra. Charli Beatriz Ludtke, hoje diretora técnica da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS). Revisitar essa trajetória é mais do que um exercício histórico: é entender por que o bem-estar animal hoje sustenta acesso a mercado, segurança jurídica e desempenho zootécnico na suinocultura.

    Do incômodo técnico ao método: a origem do abate humanitário no Brasil

    A motivação inicial foi objetiva. O sofrimento no manejo pré-abate e abate comprometia tanto os animais quanto a qualidade da carne, e a referência científica estava fora do país: a escola de Temple Grandin nos Estados Unidos e os grupos do Reino Unido, com cursos em Bristol inacessíveis para estudantes. A virada prática veio quando o professor Adroaldo Zanella trouxe Temple Grandin a Passo Fundo para treinar auditorias de bem-estar em frigorífico. Com a pesquisadora obrigada a retornar aos Estados Unidos no meio do curso, a condução do treinamento para fiscais e equipes de frigorífico ficou com a Dra. Charli, que passou a noite traduzindo as auditorias do inglês.
    Entre 2005 e 2007, a WSPA estruturou no Brasil, em cooperação com o Ministério da Agricultura, o programa que viria a ser o Steps. Segundo o currículo da convidada, foram mais de 7 mil profissionais capacitados em 380 frigoríficos. O diferencial metodológico foi pedagógico: materiais com forte apoio visual, DVDs filmados dentro das plantas e uma lógica de ensino centrada no procedimento correto, e não na comparação com o erro. A premissa, segundo ela, era que muitas falhas decorriam da falta de conhecimento de que o animal é capaz de sentir dor, e que ao transmitir esse conhecimento se observa uma mudança de chave de toda a equipe, com ganhos simultâneos para animais e pessoas.

    Por que a legislação precisava mudar

    Capacitação sem sustentação legal tende a se perder. A instrução normativa de abate então vigente, a IN 3/2000, estava defasada, e não existia nenhuma norma de bem-estar voltada à suinocultura. A partir de 2014, já no MAPA, a Dra. Charli participou da atualização do regulamento de inspeção, incluindo o bem-estar nos programas de autocontrole das empresas com previsão de penalidades quando negligenciado, e da revisão da norma de abate humanitário, com requisitos mais completos para os sistemas de insensibilização, inclusive por gás. O princípio que guiou o trabalho foi direto: os animais não podem morrer sentindo dor, porque estão doando a vida.

    Gestação coletiva: da dúvida à evidência de campo

    O passo seguinte foi levar o tema do abate para o campo, com foco na eliminação das gaiolas individuais durante a gestação e na substituição de manejos dolorosos, como a castração cirúrgica sem controle da dor. A estratégia foi construir consenso: seminários e fóruns organizados com MAPA, Embrapa Suínos e Aves, ABCS, agroindústrias voluntárias e empresas de equipamentos, trazendo pesquisadores internacionais num momento em que o Brasil ainda não tinha nenhum sistema de gestação coletiva em operação.
    O caso mais emblemático relatado no episódio envolve um produtor da região Sul que tinha um projeto pronto para 3.000 a 3.500 matrizes, todas em gaiolas individuais na gestação. Depois de participar de um dos seminários, decidiu engavetar o projeto por um ano, refletir e recomeçar do zero com gestação coletiva. O resultado, nas palavras dele relatadas pela convidada, foi que a granja não quebrou e passou a ter índices melhores. Como lembrou o host Cleandro Pazinato, uma granja dura 30 a 40 anos, e a decisão de projeto repercute por décadas.

    IN 113: uma norma construída para incluir, não excluir

    Esse aprendizado moldou a IN 113, primeira norma a estabelecer requisitos de bem-estar na suinocultura. A lógica foi de transição gradual e exequível, com validações, testes e participação de Embrapa, academia e setor produtivo. O prazo longo foi criticado na época, mas a intenção era evitar uma regra que excluísse produtores. Entre os pontos discutidos no episódio está o limite de 35 dias de permanência da matriz em gaiola antes da baia coletiva e a exigência de procedimentos sem dor, com imunocastração ou uso de analgesia e anestesia.

    O valor da norma para o país

    Para a convidada, a norma padroniza um setor com muitos Brasis, do Sul tecnificado ao Nordeste de pequenos plantéis, e harmoniza o país às diretrizes da Organização Mundial de Saúde Animal. Na prática, a primeira pergunta de uma missão estrangeira ao MAPA é quais normas existem e se são fiscalizadas. A regulamentação garante manutenção de mercados, segurança dos alimentos e segurança jurídica para o produtor, que passa a ter um padrão legal claro a seguir. O paralelo com a exigência europeia de restrição a antimicrobianos mostra que o mesmo raciocínio vale para outras frentes regulatórias.

    Biosseguridade institucional: o caso da quarentena de Cananéia

    Com 71 anos de história e 13 afiliadas, a ABCS também atua no registro genealógico, delegado pelo MAPA. Por volta de 2013 e 2014, diante do avanço da diarreia epidêmica suína nos Estados Unidos, MAPA, ABCS e ABEGS firmaram cooperação para criar a quarentena oficial. Todo animal importado para reprodução chega por Viracopos, é fiscalizado pelo Vigiagro e segue para a ilha de Cananéia, no litoral paulista, onde permanece de 30 a 40 dias sob bateria de exames. Qualquer positivo resulta em eutanásia, blindando o topo das pirâmides genéticas.

    O que muda no manejo nos próximos anos

    A agenda futura combina difusão da IN 113, com um prêmio de implementação em parceria com o MAPA, e tecnologia acessível: robôs de limpeza e desinfecção, sensores de qualidade do ar e de temperatura, detecção automática de tosse, espirro e prostração integrada a big data. Com fêmeas cada vez mais prolíficas e escassez de mão de obra, a inspeção diária individual continua indispensável, mas precisa ser facilitada pela automação.

    Ouça o episódio completo

    A conversa entre Cleandro Pazinato e a Dra. Charli Beatriz Ludtke, parte da série Bem-Estar Animal nas Instituições, detalha cada um desses bastidores e termina com um recado para quem está no campo: nunca parar de estudar e não aceitar o errado como normal. 🎧🐷
    Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.

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