Bem-Estar Único na Suinocultura: da Genética ao Abate
16 de outubro de 2026
Por que um técnico a mais no embarque pode significar 40 vezes menos perdas — e o que isso revela sobre o futuro da produção de suínos

Por que o profissional da cadeia suína deve repensar o tema
Bem-estar animal ainda soa, para parte do setor, como pauta de marketing. O episódio do SuinoCast com o Dr. Filipe Antônio Dalla Costa, coordenador técnico de Bem-Estar Animal da MSD Saúde Animal, desmonta essa ideia com dados de produção, não com discurso. Genética, vacinação e manejo de embarque aparecem como três pontos onde o bem-estar único — o conceito que une saúde animal, saúde das pessoas e sustentabilidade — decide diretamente o resultado econômico da granja.
A origem do movimento: de uma jornalista a um conceito global
O marco costuma ser esquecido por quem trabalha hoje com suínos: o bem-estar animal como campo técnico nasceu em 1964, na Inglaterra, quando a jornalista Ruth Harrison visitou sistemas de produção de alimentos e considerou aquilo incompatível com uma pecuária ética. O livro que resultou dessa investigação, Animal Machines, pressionou o parlamento britânico e levou, já em 1965, à formulação do primeiro arcabouço formal do tema: as cinco liberdades — livre de fome e sede, de desconforto, de dor e doença, de medo e angústia, e livre para expressar o comportamento natural. Esse conceito segue sendo a base sobre a qual protocolos modernos de bem-estar são construídos, inclusive nas normativas brasileiras atuais.
Genética e prolificidade: o outro lado do avanço produtivo
O melhoramento genético da fêmea suína é, ao mesmo tempo, um sucesso zootécnico e uma fonte de pressão sobre o bem-estar. Segundo o Dr. Filipe, antes do avanço genético mais intenso uma matriz produzia entre 6 e 7 leitões por parto; hoje esse número ultrapassa 35, com recordes registrados de até 42 leitões em Minas Gerais. O ganho em prolificidade não veio acompanhado, na mesma velocidade, de capacidade de a fêmea alimentar toda a ninhada — o que torna o período pós-desmame um dos pontos mais críticos de manejo na granja moderna, exigindo protocolos nutricionais e de manejo cada vez mais refinados para garantir acesso ao alimento e desenvolvimento adequado de todos os leitões.
Vacinação sem agulha: a tecnologia por trás do conceito de bem-estar único
Um dos pontos altos do episódio é a apresentação da tecnologia de vacinação intradérmica sem agulha. Para o Dr. Filipe, conhecer essa tecnologia representou uma quebra de paradigma: se o medo da agulha já é um obstáculo em humanos, a vacinação sem agulha em suínos elimina uma fonte real de estresse e dor no manejo sanitário. Os benefícios reportados vão além do bem-estar do animal — a tecnologia melhora a ergonomia da aplicação para o operador, reduz a sensibilidade à dor no momento da vacinação, evita a contaminação cruzada entre animais causada pelo reuso de agulhas, e reduz a formação de abcessos e as perdas de carcaça associadas a esse tipo de lesão. É, na definição do convidado, um caso concreto onde bem-estar animal, bem-estar humano e sustentabilidade produtiva convergem na mesma prática.
O dado que a Embrapa levantou sobre perdas no pré-abate
Talvez o dado mais direto ao bolso do produtor citado no episódio venha de um estudo da Embrapa sobre fatores de risco para perdas durante o manejo pré-abate. A pesquisa identificou que o simples fato de haver um técnico observando o embarque dos suínos reduz em 40 vezes a chance de o animal chegar ao abate cansado, morto ou fraturado. Não se trata de um novo equipamento ou de um novo protocolo farmacológico — é a presença humana qualificada mudando, sozinha, a intensidade do risco durante uma das etapas mais sensíveis da cadeia produtiva.
Implicação prática: por que o embarque decide o resultado de seis meses de produção
O Dr. Filipe é direto ao contextualizar o peso econômico dessa etapa: um suíno consome cerca de seis meses de milho, soja, água e trabalho humano até estar pronto para o abate. É no embarque — a etapa mais próxima do abate — que esse investimento inteiro pode ser perdido em minutos, por manejo inadequado, e sem possibilidade de recuperação a partir dali. Essa é a lógica que sustenta a recomendação central do episódio: dedicar atenção técnica máxima justamente ao ponto da cadeia mais próximo do abate, porque é ali que qualquer erro se torna irreversível para aquele lote.
O que isso muda no manejo do dia a dia da granja
Para o técnico de campo e o produtor, a mensagem prática do episódio se traduz em três frentes de ação: acompanhar de perto o pós-desmame diante de ninhadas maiores; considerar a adoção de tecnologias de vacinação sem agulha como parte da estratégia de bem-estar único, com ganhos sanitários e reputacionais; e, sobretudo, formalizar a presença de um profissional qualificado durante o embarque de suínos como rotina padrão, não como exceção — dado o retorno de 40 vezes menos perdas comprovado pela Embrapa. Esse conjunto de práticas coloca o Brasil, segundo o convidado, entre os países mais avançados do mundo em ciência e tecnologia aplicada ao bem-estar de suínos, sustentando normativas como a Portaria 305, que padronizou o nível mínimo de bem-estar animal exigido no país.
Ouça o episódio completo
O Dr. Filipe Antônio Dalla Costa e o host Me. Guilherme Brandt aprofundam cada um desses pontos, com mais contexto histórico, técnico e de bastidores da indústria, no episódio completo do SuinoCast. 🎧🐷 Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.
