Criação de bezerras: por que os primeiros 150 dias definem a vaca de alta produção
7 de outubro de 2026
Da programação fetal à conversão alimentar por real investido, o bezerreiro virou um centro de decisão estratégica da fazenda leiteira.

Quando nasce uma bezerra, a fazenda já investiu no tempo do veterinário que fez a inseminação, no valor genético do sêmen e na expectativa de ganho genético em relação à mãe. Ainda assim, durante décadas, esse animal foi tratado como um custo a ser minimizado: o mínimo de leite possível, desaleitamento rápido e a torcida para que chegasse à sala de ordenha. Esse modelo ficou para trás. Hoje, a bezerra é entendida como a base da pirâmide da vaca de alta produção, e o intervalo de 23 a 25 meses entre o nascimento e o primeiro parto passou a ser gerido como um investimento com retorno mensurável.
Esse foi o ponto de partida da conversa entre o Me. Gustavo Almeida, o Dr. João Costa e a Dra. Kellen Oliveira no Mais Rúmen Podcast, gravado presencialmente durante a SBZ 2026. A discussão percorre desde a nutrição da vaca gestante até a forma de medir a eficiência econômica do bezerreiro.
Plasticidade: a janela que define a trajetória produtiva
O conceito central do episódio é a plasticidade, ou seja, a capacidade de melhorar, ou ao menos ajudar a definir, qual estrada o animal vai tomar. De um lado está a trajetória de alta produção. Do outro, um caminho em que o potencial produtivo começa a ser comprometido pelos desafios e estresses acumulados nas primeiras semanas de vida.
O Dr. João Costa destaca os primeiros 120 dias, e cada vez mais os primeiros 150 dias, como a janela crítica. Mas essa janela começa no que talvez seja o dia mais importante da vida do animal: o parto. Se esse dia for bem conduzido, para a vaca e para a bezerra, a probabilidade de tudo acontecer conforme o planejado aumenta muito. A lógica é a mesma aplicada à vaca em lactação: uma boa lactação começa com um bom parto e uma boa transição.
Programação fetal: a bezerra começa antes do parto
A Dra. Kellen Oliveira, que estudou programação fetal no mestrado, chama a atenção para uma fase que ainda recebe pouca atenção na bovinocultura leiteira. Os primeiros trabalhos na área investigaram o estresse térmico e, depois, a nutrição, e hoje se entende como a nutrição da vaca impacta a bezerra e como esse efeito pode ser levado para a vida inteira por meio da plasticidade, desde o embrião.
A implicação prática é direta: a nutrição da vaca não é somente para a vaca. Ao formular a dieta da vaca gestante, a fazenda também está nutrindo a futura bezerra. Como lembra o Dr. João Costa, quando o pé da bezerra aparece no parto, ela já tem no mínimo nove meses de história, e já se discute inclusive um efeito transgeracional que começa ainda antes.
Do “quanto leite eu dou” à formulação por resultado
Durante muito tempo, a nutrição de bezerras se resumiu a copiar o que outra fazenda fazia. O cenário típico era de quatro litros de leite por dia, com o manejo muitas vezes nas mãos de uma criança que passava cinco minutos alimentando os animais. Hoje, a discussão se aproxima de uma formulação orientada ao resultado esperado: qual é o ganho de peso desejado e qual é o nível de desafio sanitário presente naquele ambiente.
Nesse contexto, o Dr. João Costa enfatiza o adensamento correto de nutrientes nos primeiros 100 dias e a relação entre dieta sólida e dieta líquida durante o aleitamento. É esse ajuste que permite que diversas fazendas alcancem ganhos de 800 a 900 gramas, ou até 1 quilo por dia, de forma consistente e sem grandes variações.
O desafio está na dieta líquida. Com dados de fazenda, o Dr. João Costa mostra que o leite de descarte, ao longo de três meses, chegou a variar 35% na energia disponibilizada por dia, em Mcal, com o mesmo volume ofertado. A diluição da matéria seca pode ir de 18% a 10% do litro, o que significa oferecer 180 ou 120 gramas por litro de solução, uma variação de um terço. A pergunta que fica é simples: seis litros, mas seis litros do quê?
Higiene do aleitamento: o risco que a fazenda não enxerga
Os convidados também trazem um paralelo com o cuidado humano. Quem tem filho ferve a mamadeira a cada uso. Na fazenda, o balde ou a mamadeira que recebeu leite muitas vezes só ganha água por cima. O resultado é inoculação justamente na fase em que a capacidade do animal de lidar com esse desafio ainda é reduzida.
Aditivos de alto valor: forma, função e cepa
A evolução do bezerreiro também trouxe novas soluções: sucedâneos de melhor qualidade, colostro em pó, leveduras, vitaminas e aditivos de alto valor. O episódio propõe um critério objetivo para usá-los: conectar forma e função. Se a função de um probiótico é reduzir a acidose, é preciso saber se esse desafio existe na propriedade e em qual momento ele ocorre. No caso das leveduras, cada forma, como parede celular e núcleo, cumpre uma função diferente.
Os convidados citam uma revisão com mais de cem estudos com pré e pós-bióticos em bezerros. Em alguns deles, nada acontece. Mas, quando forma e função estão conectadas ao desafio real, o retorno sobre o investimento é sempre muito positivo.
A especificidade vai além do gênero do microrganismo. A cepa funciona como um CPF: uma Saccharomyces não é igual à de outra empresa, e as funções podem ser totalmente diferentes. Essa diferença entre cepas ajuda a explicar a grande amplitude de resultados observada com leveduras.
O bezerreiro como centro de custo mensurável
O nível de investimento explica por que a precisão se tornou obrigatória. Hoje se fala em R$ 2 mil a R$ 3 mil apenas em nutrição por animal em cerca de 100 dias, possivelmente os dias nutricionalmente mais caros da vida de um animal na indústria leiteira. Soma-se a isso o acompanhamento veterinário e de pessoas: o benchmark brasileiro fala em 30 a 40 bezerras por funcionário, e há fazendas com cerca de 10 bezerras por funcionário contratado para o bezerreiro. Em fazendas de alta performance, as bezerras já têm condições de conforto muito parecidas com as das vacas em lactação.
Para medir o retorno desse investimento, o episódio usa uma metáfora simples. Quem coloca 100 litros de gasolina em um carro que deveria fazer 10 quilômetros por litro precisa saber se rodou mil, 950 ou 1.100 quilômetros. No bezerreiro, a proposta é deixar de olhar apenas o ganho de peso e passar a medir quantos reais custa um quilo de ganho, a conversão alimentar e, principalmente, a conversão alimentar por real investido.
O que isso muda no manejo
Para o técnico e o produtor, a mensagem se traduz em decisões concretas: tratar a nutrição da vaca gestante como parte do programa de bezerras; conduzir o parto como o dia mais importante da vida do animal; conhecer a concentração real de sólidos e energia da dieta líquida, em vez de gerenciar apenas o volume; garantir a higiene de baldes e mamadeiras; escolher aditivos a partir do desafio da propriedade e da cepa específica; e acompanhar o custo por quilo de ganho como indicador central. Um animal saudável, que atingiu o peso adequado sem grandes desafios sanitários, está muito mais preparado para se tornar a vaca que chega à sala de ordenha e produz bastante leite.
A vaca de amanhã começa agora
Se o objetivo é ter vacas de alta produção daqui a dois anos, a base precisa ser sólida, e ela é construída no útero, mas principalmente na primeira semana e nos primeiros dois a três meses de vida. No bezerreiro, quem não interpreta os dados decide no escuro.
Quer aprofundar essa discussão? Ouça o episódio completo do Mais Rúmen Podcast com o Me. Gustavo Almeida, o Dr. João Costa e a Dra. Kellen Oliveira, com oferecimento da Lallemand. 🎙️🐄
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