DDG na avicultura brasileira: por que o nutricionista de aves não pode mais tratar o derivado de biorrefinaria como ingrediente alternativo
16 de setembro de 2026
Cerca de 25% do etanol brasileiro já é de milho. São aproximadamente 6 milhões de toneladas de derivados hoje e a projeção é dobrar em três anos. A pergunta deixou de ser se você vai formular com DDG — é quando, e com que critério.

Existe uma inércia confortável na nutrição de aves brasileira: o binômio milho e farelo de soja funciona há décadas, a matriz nutricional está calibrada, os desvios são conhecidos e o risco percebido é baixo. Essa inércia tem um custo, e ele está ficando caro. Enquanto boa parte dos nutricionistas ainda classifica os derivados de biorrefinaria como “ingredientes alternativos” — categoria mental reservada ao que se usa quando o preço aperta —, o volume desses produtos no mercado brasileiro alcançou uma escala que torna a categoria obsoleta.
O ponto de partida é um dado que quase ninguém conecta ao próprio trabalho: ao abastecer o carro com etanol no Brasil, cerca de 25% daquele álcool já vem do milho. Não é 2%, não é 3% — é um quarto da matriz. E cada litro de etanol de milho produzido devolve, obrigatoriamente, um volume proporcional de derivados proteicos e energéticos para a cadeia de alimentação animal.
Não é subproduto, não é coproduto: é produto
A confusão de nomenclatura não é preciosismo acadêmico — ela molda a forma como o profissional trata o ingrediente. No etanol de cana, o que sobra é bagaço: baixo valor nutricional, destino energético, subproduto no sentido estrito. No etanol de milho, a lógica industrial é outra. O amido é convertido em álcool e o restante da matéria-prima — proteína, fibra, minerais, extrato etéreo — é concentrado e processado deliberadamente para gerar um segundo produto comercial.
A recém-publicada portaria do Ministério da Agricultura consolidou esse entendimento. Construída em grupo de trabalho com participação das empresas e de técnicos do setor, a norma definiu que se trata de produto derivado das biorrefinarias — pela mesma lógica que jamais permitiu chamar o farelo de soja de subproduto da extração de óleo. Mais relevante do ponto de vista prático: a portaria classificou os materiais hoje disponíveis no mercado, fixando parâmetros nutricionais para o DDGS e para o DDG de alta proteína. Isso dá segurança ao comprador interno, que passa a ter referência objetiva de composição, e sustenta a exportação — um mercado que cresceu rapidamente e que acabou de receber a abertura da China.
Dois produtos distintos, não um só
O erro conceitual mais frequente é falar de “DDG” como se fosse um ingrediente único. Não é. As biorrefinarias brasileiras operam com tecnologias diferentes e entregam materiais diferentes. Há empresas produzindo simultaneamente um DDG de alta proteína — que eleva o teor proteico e reduz a fração fibrosa — e um segundo produto mais fibroso, que carrega a fração solúvel. São matrizes nutricionais distintas, com perfis de aminoácidos e níveis de energia próprios, e que ocupam espaços diferentes na formulação: dependendo da característica do produto, a inclusão reduz a participação do milho e do farelo de soja em proporções variáveis; em alguns casos, desloca predominantemente o farelo de soja.
Some a isso o processo: entre a entrada do milho na usina e a saída do produto acabado transcorrem de cinco a sete dias. Temperatura, tempo de fermentação, rota de separação e tecnologia de secagem variam entre plantas. A analogia usada no episódio é boa justamente por ser grosseira: dizer que se usa “um carro” não informa nada — marca A, marca B e marca C entregam desempenhos diferentes. O mesmo vale para o DDG. Conhecer o produto específico da usina que abastece a sua fábrica é pré-requisito, não refinamento.
Micotoxinas: o problema americano não é automaticamente o nosso
A objeção técnica mais legítima ao DDG é a concentração de micotoxinas. A lógica é correta e conhecida: ao remover o amido do milho por fermentação, todos os demais componentes são concentrados — inclusive contaminantes. Nos Estados Unidos, isso se tornou um problema significativo e ajudou a construir a reputação de risco que atravessou a fronteira junto com o ingrediente.
O cenário brasileiro, porém, tem duas diferenças estruturais. A primeira é agronômica e geográfica: a maior parte das biorrefinarias está instalada no Centro-Oeste, o que significa matéria-prima predominantemente de segunda safra. A colheita ocorre em janela seca — as chuvas acompanham germinação e floração e cessam depois —, resultando em grão com menor umidade e menor pressão de contaminação fúngica. É uma constatação antiga de quem acompanha recebimento de grãos em escala industrial: o milho do Centro-Oeste tende a se comportar melhor nesse aspecto do que o da região Sul, onde o Rio Grande do Sul concentra os casos mais críticos.
A segunda diferença é econômica e, por isso, mais confiável do que qualquer declaração de intenção: a usina de etanol tem interesse próprio em recusar milho ruim. Milho de baixa qualidade derruba o rendimento de conversão em álcool, que é o produto de maior valor da planta. O resultado é um controle rigoroso de entrada, com avaliação e rejeição efetiva de cargas. Na prática, o nutricionista se beneficia de um filtro de qualidade instalado por razões que nada têm a ver com nutrição animal — e que, exatamente por isso, é aplicado com consistência.
Quanto incluir: a curva de aprendizado é obrigatória e intransferível
Aqui está a implicação prática mais direta para quem formula. Não existe percentual universal de inclusão: os níveis variam por espécie, por categoria e por produto. Frango de corte admite um percentual, poedeiras outro, suínos outro; e o DDG de alta proteína e o DDGS não ocupam o mesmo espaço na matriz. A conduta recomendada por quem já atravessou várias ondas de ingredientes novos é conservadora e eficaz: se a formulação suporta 10%, entre com 5% e observe como o produto se comporta dentro da sua cadeia produtiva específica — desempenho zootécnico, uniformidade, qualidade de cama, resposta de conversão alimentar.
Esse método resolve o problema real, que não é técnico e sim comportamental. O receio do nutricionista brasileiro em relação ao DDG foi importado junto com histórias americanas de variabilidade e contaminação, em um contexto industrial que já não é o nosso. Grandes companhias brasileiras com equipes de nutrição de alto nível já operam com adoção consistente em aves e suínos — não por ousadia, mas porque construíram a curva de aprendizado que cada empresa precisa construir sozinha.
O que isso muda na sua matriz de formulação
Três consequências operacionais imediatas. Primeiro, a matriz nutricional precisa passar a tratar DDGS e DDG de alta proteína como entradas distintas, com valores próprios de energia metabolizável e perfil de aminoácidos digestíveis, preferencialmente validados com o fornecedor específico. Segundo, o programa de monitoramento de micotoxinas deve incluir o derivado com a mesma disciplina aplicada ao milho — não com desconfiança maior, mas também não com a suposição de que o filtro da usina dispensa a análise. Terceiro, a relação com a pesquisa deixa de ser opcional: os dados que dão conforto à decisão de inclusão vêm de ensaios conduzidos com o produto brasileiro, e a demanda por parcerias entre indústria, universidades e institutos de pesquisa nunca foi tão concreta.
A janela de vantagem competitiva é curta por natureza. Com a abertura de mercados como a China e o crescimento consistente das exportações de derivados, o produto vai ser disputado. Quem construir a curva de aprendizado agora formula com competitividade; quem esperar vai comprar o mesmo ingrediente mais tarde, mais caro e sem repertório técnico para extrair valor dele.
