Do chão de fábrica à prateleira: por que o pet food seguro nasce no processo, e não na planilha
23 de outubro de 2026
a zootecnista Brenda Garofalo mostra onde a indústria pet erra, como a conformidade vira vantagem competitiva e o que falta para o Brasil exportar mais

O Brasil produz mais de 4,1 milhões de toneladas de pet food por ano, exporta para mais de 20 países da América e da Ásia e soma cerca de 100 mil toneladas em exportação, com projeção de dobrar esse volume nos próximos cinco anos. Por trás desses números existe uma pergunta que poucos tutores, e muitos empreendedores, deixam de fazer: qual é o caminho que um produto percorre antes de chegar ao comedouro? No Pet Food Podcast, a zootecnista Brenda Garofalo, fundadora da Sinergia AgroPet, abriu os bastidores desse caminho em conversa com a Dra. Kellen, e a principal mensagem desafia uma crença arraigada no setor: o produto não é a fórmula.
Por que a fórmula não explica o produto
Brenda começou a carreira como monitora de qualidade na linha de produção, passou pelo desenvolvimento de petiscos e de alimentos completos e só depois chegou ao P&D e aos assuntos regulatórios. Essa trajetória moldou um princípio que, segundo ela, nenhuma planilha ensina: o produto não é formulação, o produto é processo. Uma formulação pode estar perfeita no papel e falhar na prática por causa de um equipamento mal regulado, de uma matéria-prima com composição variável ou de um ponto crítico de controle mal controlado.
A implicação é direta para quem formula. Desenvolver pensando apenas no conceito de prateleira ignora a realidade da extrusão, da secagem, da pesagem e da variabilidade dos lotes. Ao projetar o produto considerando como ele será produzido, validando o processo e só então avançando para rotulagem e registro, o desenvolvedor antecipa o problema antes que ele se transforme em custo.
O caminho real do conceito à prateleira
O desenvolvimento começa muito antes da fórmula. Ele passa por definir o público-alvo e a fase de vida do animal, seja filhote, adulto ou sênior, montar a especificação técnica, selecionar ingredientes com composição confiável e, então, formular. Um dos pontos mais importantes é a validação em escala piloto, seguida da definição de rotulagem, da documentação e do registro.
Onde a maioria erra é pulando etapa. Muitas empresas querem ir do conceito direto para a produção em escala, sem validação, sem base técnica sólida e sem pensar na conformidade. O resultado é um produto sem segurança, não conforme, fora de padrão e difícil de produzir. Quando algo dá errado, o primeiro diagnóstico costuma ser "a fórmula está errada". Para Brenda, quase nunca é: o erro está em tratar o desenvolvimento como um atalho, e não como um processo.
Conformidade regulatória: de obstáculo a vantagem competitiva
Muitos empreendedores enxergam o Ministério da Agricultura como burocracia. Brenda propõe outra leitura: a conformidade é a base de segurança, e a segurança é o que sustenta a confiança. Quando MAPA, BPF e APPCC são tratados como parte do produto desde o início, a empresa ganha em três frentes: evita não conformidades e recalls, que custam caro e desconstroem a marca; torna-se apta a exportar, o que exige um rigor absurdo; e constrói reputação em um mercado cujo tutor é cada vez mais exigente.
A Dra. Kellen, que integra a Câmara Setorial Pet do Ministério da Agricultura, reforçou no episódio que as instruções normativas existem para padronizar aquilo que cada empresa fazia à sua maneira, nem sempre da forma mais adequada para o animal. A conformidade, portanto, não impede a inovação, mas permite inovar com responsabilidade, que é, na visão de Brenda, o único jeito sustentável de inovar.
O rótulo como compromisso com o tutor
O tutor lê o rótulo, mas nem sempre sabe interpretá-lo. Em geral, observa proteína e ingredientes e, muitas vezes, é guiado pelo marketing em vez das informações reais. O que ele deveria compreender é que o rótulo é um compromisso: o que está escrito precisa ser verdade, estar em conformidade com a IN 30 do MAPA e refletir o que o animal realmente vai receber. Para a indústria, o desafio é comunicar com transparência e base técnica, explicando o porquê das escolhas sem apelo por modismo. Comunicação honesta gera confiança, e confiança gera fidelização.
Petisco é alimento, não agrado
O mercado de bifinhos e snacks cresceu de forma acelerada, impulsionado pela humanização dos animais e pela compra por compensação. O que separa um petisco tecnicamente sólido de um produto que só parece bom é a base técnica: especificação definida, ingredientes com composição confiável, processo validado, controle de qualidade e conformidade regulatória. O petisco que apela apenas para o visual e para o marketing não entrega segurança nem valor nutricional consistente, e pode gerar desde falhas de qualidade até risco para o animal. Petisco é alimento e precisa ser tratado com o mesmo rigor técnico da ração.
BPF, APPCC e rastreabilidade: investimento, não despesa
A chave, segundo Brenda, é mudar a mentalidade de custo para investimento. APPCC, BPF e rastreabilidade são a infraestrutura que protege a marca, o animal e o negócio. Um processo controlado e rastreável previne o problema antes que seja preciso corrigi-lo, o que sai muito mais barato. Além disso, a qualidade bem gerida vira argumento comercial: distribuidor, médico-veterinário e tutor querem a garantia de que o produto oferecido a um animal que, muitas vezes, é membro da família é seguro e confiável.
Dados, inteligência artificial e o futuro da decisão no pet food
O uso de dados ainda engatinha no setor, mas já muda decisões. Na formulação, permite otimizar custos sem perder qualidade, ajustando proporções com base na composição real dos ingredientes. Na precificação, a análise de mercado e de concorrentes orienta escolhas mais assertivas. Na gestão, transforma intuição em decisão baseada em evidência. Sobre a inteligência artificial, Brenda é pragmática: ela gera impacto real onde há dado estruturado e processo definido, como otimização de formulação, análise de qualidade, previsão de demanda, automação de documentação e análise de mercado. Onde falta essa base, continua sendo promessa. Primeiro o processo, depois a tecnologia.
Exportação: arrumar a casa antes de vender para fora
Exportar exige muito mais do que um bom produto. É preciso conformidade com os requisitos do mercado de destino, que variam de país para país, documentação e dossiês complementares, rastreabilidade sólida, estabilidade de processo e capacidade de atender especificações internacionais. Os principais gargalos são a falta de documentação adequada, processos não auditáveis e o desconhecimento dos requisitos do comprador. O Brasil tem volume e potencial, mas quem quer exportar precisa tratar a operação como um projeto estruturado, e não como uma tentativa, que costuma ser cara.
O que muda no desenvolvimento e na gestão
Os casos relatados por Brenda ilustram o argumento. Em uma pequena indústria familiar, um bifinho mastigável não batia especificação, e a suspeita recaía sobre a fórmula. O problema real estava na pesagem incorreta e em insumos sem identificação. Um plano de ação de seis meses, com treinamento da equipe, reorganizou a operação. Em outra fábrica, a alta rotatividade de funcionários impedia que o processo fosse calibrado, e o produto saía fora de padrão, com a culpa atribuída à formulação. Nos dois casos, a lição é a mesma: o diagnóstico começa no processo, e valorizar a equipe é parte da qualidade. No bate-bola, ela resumiu o erro mais comum: pular a validação e ir do conceito direto para a escala. E apontou o conceito mais superestimado: o apelo de natural e humano sem base técnica, que vira marketing e não agrega valor real.
Ouça o episódio completo
Qualidade de verdade não se improvisa: ela se constrói desde a formulação, com segurança, conformidade e valor nutricional andando juntos, do chão de fábrica até a tigela. Para aprofundar cada etapa desse caminho, ouça a conversa completa entre a Dra. Kellen e a zootecnista Brenda Garofalo no Pet Food Podcast, um conteúdo baseado em ciência, não em achismos 🐶🐱🎙️
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