Enzimas na nutrição de aves: por que a decisão deixou de ser sobre uma única enzima
5 de agosto de 2026
Da protease isolada aos blends com dez enzimas — como o avicultor extrai mais nutriente do mesmo milho e do mesmo farelo de soja.

Existe uma verdade incômoda em qualquer sistema de produção animal: nenhum animal digere 100% do que ingere. Se você coletar as fezes de um lote e mandar analisar, vai encontrar proteína, cálcio, fósforo, gordura e fibra — nutrientes que entraram na ração, foram comprados a preço de commodity e saíram sem serem aproveitados. Como resume Nilton Santos, Gerente Técnico Comercial Nacional de Aves da Nuctramix, se a ave fosse totalmente eficiente não sobraria nutriente na excreta. Ela sobra porque o processo digestivo é imperfeito — e é exatamente nessa lacuna que as enzimas exógenas trabalham.
Para o extensionista e o nutricionista de campo, entender enzimas deixou de ser um detalhe de formulação e virou uma questão de competitividade. Com o preço das commodities estabilizado em patamar alto e a concorrência interna e externa cada vez mais acirrada, ganhar dinheiro não é comprar mais insumo — é extrair mais do mesmo insumo.
O que a fezes revela sobre a sua ração
O milho e o farelo de soja, base da dieta avícola, carregam frações que a ave simplesmente não tem enzimas endógenas para quebrar. As principais são os polissacarídeos não amiláceos (PNAs) — parte do substrato dos ingredientes que fica indisponível no trato digestório. Sem intervenção, esse material não só deixa de nutrir como aumenta a viscosidade da digesta e prejudica a absorção do que sobrou.
A lógica das enzimas exógenas é fornecer ao animal a ferramenta bioquímica que a evolução não lhe deu: uma xilanase para atacar arabinoxilanos, uma beta-glucanase para beta-glucanos, uma fitase para liberar o fósforo aprisionado no fitato, uma protease para acelerar a hidrólise das proteínas e, mais recentemente, a lipase para melhorar o aproveitamento da gordura — um substrato que, como lembra o convidado, até pouco tempo não recebia ação enzimática nenhuma na formulação.
Da enzima isolada aos blends com dez enzimas
Durante anos, a conversa girava em torno de uma enzima por vez — em geral uma protease única, escolhida por empresa. Foi na Europa e na China que o conceito amadureceu: revisou-se a forma como a proteína é digerida e passou-se a trabalhar a protease em frações complementares — ácida, neutra e alcalina — cobrindo diferentes momentos e pH do processo digestivo. O mesmo raciocínio se espalhou para os demais substratos.
O resultado é o cenário atual descrito por Nilton Santos: o setor está chegando a blends com até dez enzimas combinadas. Não se trata de empilhar produtos, e sim de reconhecer que cada ingrediente é complexo. O milho apresenta um tipo de substrato; o farelo de soja, outro. Formular enzimas passou a exigir leitura de matriz nutricional, não a escolha de um único aditivo.
O diferencial técnico: fazer mais com o mesmo recurso
A frase que sintetiza o episódio é também a tese econômica do setor: com o mesmo recurso, o profissional vai ter que fazer mais. Enquanto o custo dos grãos representa a maior fatia da produção e está fora do controle do técnico, a eficiência de aproveitamento é uma variável sobre a qual ele pode, sim, agir. Recuperar um ponto percentual de energia ou de aminoácido digestível do mesmo milho é margem que não exige comprar nada a mais.
Vale registrar o ritmo dessa curva. Segundo o convidado, o que aconteceu na ciência das enzimas nos últimos vinte anos vai se repetir nos próximos cinco — uma aceleração puxada pelo acesso à pesquisa. Ele lembra que, há duas décadas, era preciso pagar para ler um artigo científico e muitas conclusões vinham de testes de campo conduzidos pelo próprio técnico. Hoje, a informação circula em tempo real, e quem não acompanha fica para trás.
O que isso muda na sua formulação e no seu manejo
Na prática, o extensionista precisa parar de pensar em enzima como um item pontual e começar a pensar em estratégia enzimática ligada à matriz de ingredientes de cada fórmula. Isso significa mapear os substratos presentes na dieta (amido, PNAs, fitato, proteína, gordura), avaliar blends que cubram esse conjunto e acompanhar os indicadores zootécnicos — conversão alimentar, ganho de peso e uniformidade — para validar a resposta no campo, e não apenas na teoria.
A decisão, nas palavras de Nilton Santos, é globalizada: não é mais escolher uma ou duas enzimas isoladas, e sim enxergar o ingrediente e a dieta como sistema. É esse olhar que separa o técnico que apenas segue a bula do profissional que entrega eficiência mensurável ao produtor integrado.
Quer entender enzimas com profundidade suficiente para virar referência técnica na sua equipe? Ouça o episódio completo de O Aviário com Nilton Santos e o host Wellinton Molinetti. 🎙️🐔 Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.
