Fósforo e Cálcio Digestível em Aves: Por Que Sua Fórmula Pode Estar Errada
30 de setembro de 2026
Dados originais da ESALQ/USP mostram que fosfatos e calcários brasileiros têm digestibilidade real muito abaixo do que a literatura internacional sugere — e o impacto cai direto na margem de segurança e no custo da ração.

Repensar o conceito de fósforo disponível
Por décadas, a nutrição de aves tratou o fósforo inorgânico e o fósforo de origem animal como praticamente garantidos: se a análise química mostrasse fósforo não fítico, a suposição era de aproveitamento quase total pelo animal. O Dr. Felipe Dilelis de Resende Sousa, professor da ESALQ/USP, vem mostrando em uma série de estudos que essa suposição não se sustenta. Em entrevista ao Dr. Marcos Café, no podcast O Aviário, ele detalhou como diferentes fontes de fósforo e cálcio podem ter digestibilidade real muito distante do que a tabela brasileira de aves e suínos assume — e por que isso deveria mudar a forma como fábricas de ração calculam suas margens de segurança.
Fósforo disponível x fósforo digestível: o que muda
A tabela brasileira de aves e suínos, seguindo o conceito adotado pelo NRC de 1994, calcula o fósforo disponível como o fósforo total do alimento menos o fósforo fítico — uma conta baseada em análise química, não em absorção real pelo animal. O fósforo digestível, por outro lado, é medido em ensaios biológicos com aves, e reflete o que de fato passa pela parede intestinal. Dilelis explica que o avanço da nutrição de precisão em aminoácidos, que já migrou de valores totais para valores digestíveis, ainda não se completou para minerais como fósforo e cálcio — mesmo com o Nasem 2026 reconhecendo a necessidade da mudança, mas ainda recomendando trabalhar com fósforo não fítico nas tabelas de exigência.
A metodologia por trás dos números
Determinar digestibilidade de fósforo não é trivial. A fisiologia do fósforo está intimamente ligada ao metabolismo do cálcio e da vitamina D, o que significa que a formulação da dieta basal usada no ensaio interfere diretamente no resultado. Por isso, a World's Poultry Science Association (WPSA) propôs, em 2013, um método de regressão como padrão, combinando ingredientes purificados e convencionais para simular condições próximas da dieta comercial. Mesmo com esse protocolo padronizado, testes de repetibilidade entre laboratórios de diferentes países mostraram variação relevante nos resultados para o mesmo ingrediente, o farelo de soja, o que reforça que idade das aves, tempo de adaptação à dieta e nível de inclusão do ingrediente testado ainda precisam ser mais bem padronizados.
Os números que a indústria não esperava
Na tese de doutorado de Dilelis, farinhas de carne e ossos apresentaram digestibilidade de fósforo entre 40% e 66%, enquanto farinhas de vísceras de aves chegaram a 96% a 98%, provavelmente porque o fósforo nessas farinhas ainda está complexado em hidroxiapatita, e não apenas triturado. O resultado mais surpreendente, porém, veio de fosfatos inorgânicos brasileiros: enquanto a literatura internacional aponta digestibilidade próxima de 88% a 90%, ensaios sucessivos, com métodos diferentes e fosfatos de diferentes indústrias, convergiram para 45% a 48% de digestibilidade real. Para o cálcio, o cenário é ainda mais amplo: pesquisas apresentadas na conferência da Poultry Science Association mostraram calcários variando de 20% a quase 70% de digestibilidade de cálcio entre mais de 70 fontes avaliadas, enquanto o cálcio de farinhas de carne parece ter amplitude menor, embora com poucos estudos disponíveis ainda.
Por que isso muda a formulação e a margem de segurança
O excesso de cálcio na dieta não é neutro: segundo Dilelis, ele reduz a ação da fitase e ainda interfere no pH intestinal, prejudicando o aproveitamento de outros nutrientes. Ou seja, compensar uma digestibilidade de fósforo ou cálcio incerta com margens de segurança maiores pode, paradoxalmente, piorar a eficiência da dieta como um todo. A recomendação do pesquisador é migrar para um sistema de formulação em cálcio digestível, no mesmo espírito da migração já consolidada para aminoácidos digestíveis, evitando tanto o excesso quanto a falta do nutriente.
O limite atual das tecnologias de análise rápida
Uma barreira prática apontada no episódio é a limitação do NIRS para predição de minerais. Enquanto a tecnologia já é usada com confiança para estimar aminoácidos digestíveis e energia metabolizável, sua capacidade de prever digestibilidade de fósforo e cálcio ainda é baixa, o que obriga as empresas a depender de análise química convencional. Dilelis defende que o setor precisa investir em tecnologias rápidas de análise mineral, especialmente porque o custo do fósforo tende a subir e o cálcio, por ser barato, é historicamente negligenciado nas formulações.
O que isso muda na prática da fábrica de ração
Para quem formula, compra matéria-prima ou avalia novos ingredientes, a mensagem central do episódio é clara: um valor de digestibilidade genérico, tirado de tabela internacional, não garante o desempenho da fórmula com fosfatos e calcários brasileiros. O mesmo raciocínio, segundo Dilelis, se aplica a qualquer ingrediente que varie por genética, processamento ou clima, como farinha de inseto, DDG e farelo de soja — reforçando que ensaios de metabolismo continuados são a base para calibrações de NIRS confiáveis e para decisões de formulação mais precisas.
Quer entender a fundo a diferença entre fósforo disponível e digestível, os números reais de fosfatos e calcários brasileiros e o futuro da nutrição mineral de precisão em aves? Ouça o episódio completo do Dr. Felipe Dilelis de Resende Sousa com o Dr. Marcos Café no O Aviário. 🎙️🐔 Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.
