Fósforo na nutrição de aves e suínos: da quantidade à eficiência de aproveitamento
15 de outubro de 2026
Com o fosfato bicálcico a R$ 7,50 o quilo, formular fósforo por margem de segurança deixou de ser prudência e virou custo

O fósforo nunca deixou de ser essencial. Não existe produção animal sem ele: o mineral participa da mineralização óssea, da formação do ATP e de praticamente todo o metabolismo energético de aves e suínos. O que mudou foi a pergunta que o nutricionista precisa fazer diante da fórmula. Durante décadas, a lógica foi quantitativa: quanto de farinha de carne, quanto de fosfato de cálcio, quanto ajustar para fechar a exigência com folga. Hoje, segundo Nilton Borges, gerente nacional de aves da Nuctramix, a questão central é outra: quanto de fósforo a ave e o suíno realmente necessitam, e quanto do fósforo já presente na dieta conseguimos tornar disponível e efetivamente utilizado.
Essa virada não é apenas conceitual. Ela chega num momento em que o fósforo se tornou o mineral de maior impacto no custo da nutrição de monogástricos, e em que a tecnologia de aditivos avançou mais depressa do que muitos conceitos tradicionais de formulação.
O fósforo que está na dieta e a ave não aproveita
Grande parte do fósforo das matérias-primas de origem vegetal está na forma de fitato. Apenas a menor fração é disponível; a maior parte permanece indisponível para o animal. É exatamente aí que está o problema e, ao mesmo tempo, a oportunidade. A evolução tecnológica atual busca aumentar a eficiência de utilização dessa fração por meio da combinação de fitase, fontes de fósforo altamente disponíveis, acidificação, suporte ao metabolismo mineral e redução da quelatação do fósforo livre no lúmen intestinal.
As Tabelas Brasileiras publicadas em 2024 consolidam evidências de que, em muitas formulações, existe adição de fósforo acima do necessário. Durante anos, a margem de segurança foi conservadora, o que Nilton chama, com franqueza de campo, de "coeficiente de cagaço" do nutricionista. A ressalva é fundamental: a proposta não é retirar o fósforo da dieta. Com fitases de maior eficiência, conhecimento preciso da composição das matérias-primas e ajuste correto de cálcio, fósforo disponível e relação cálcio:fósforo, é possível trabalhar com níveis menores sem comprometer o desempenho. O alvo é o excesso.
Fosfato bicálcico e farinha de carne: custo, variabilidade e risco
O fosfato bicálcico, fonte muito utilizada em postura comercial, matrizes pesadas e, em algumas regiões, no frango de corte, saiu de R$ 2,40 o quilo em 2020 para R$ 6,57 no mês anterior à gravação, cerca de 173% acima, e já é negociado entre R$ 7,00 e R$ 7,50, dependendo do mercado. O travamento do estreito de Ormuz elevou o custo dos fretes e do ácido fosfórico, base da produção do fosfato. Para o nutricionista, o problema não é só preço: é trabalhar ao mesmo tempo com custo, disponibilidade, qualidade e volatilidade das fontes convencionais.
A farinha de carne, por sua vez, é uma boa fonte de fósforo, mas traz fatores que raramente entram na conta. Para eliminar patógenos da massa verde, o processamento exige temperaturas de 120 a 140 °C, o que desencadeia a reação de Maillard e reduz a disponibilidade de lisina e de outros aminoácidos. Resolve-se o problema sanitário e cria-se um problema nutricional. Soma-se a isso a variação na proporção de osso ao longo do abate, que desbalanceia cálcio e
fósforo: formula-se com uma farinha 42 e, na prática, entra uma 45, às vezes do mesmo fornecedor.
O tempo entre abate e processamento favorece a oxidação da gordura, com aumento de peróxidos e de acidez. Proteína subprocessada chega ao intestino posterior e eleva a produção de amônia e aminas biogênicas. E, após o processamento, a recontaminação por Salmonella, E. coli e Clostridium, na origem ou no armazém do cliente, pode resultar em enterites inespecíficas ou enterite necrótica. Com o farelo de soja a R$ 3 mil a tonelada no Norte e Nordeste, a farinha de carne acompanha e caminha para R$ 3,00 o quilo.
Fitase de nova geração: além da liberação de fósforo
Nem toda fitase é igual. As 6-fitases iniciam a hidrólise pelo fósforo da posição 6 da molécula de fitato e, segundo Nilton, apresentam de 30% a 40% mais eficiência em relação às 3-fitases. Entre as próprias 6-fitases há diferenças relevantes, ligadas ao organismo de produção, à termoestabilidade, à faixa de pH ideal e, sobretudo, à resistência às proteases endógenas, como tripsina e quimotripsina, e exógenas. Como toda enzima é proteína, uma fitase sem essa resistência perde praticamente sua ação.
Ao quebrar o fitato, a enzima também reduz seu efeito quelante sobre minerais, aminoácidos e energia. São os chamados efeitos extrafosfóricos. Por isso, mesmo quando a fitase não se paga apenas pela liberação de fósforo, a destruição do fitato já tem valor nutricional. A conclusão prática é que a fitase de nova geração deve ser avaliada não só pelas unidades de FTU por quilo de ração, mas pelo valor nutricional recuperado e pela repetibilidade do resultado.
Superdosagem: onde está o limite
Mais fitase não significa automaticamente mais resultado. A resposta depende do substrato disponível, do teor de fitato, da matriz nutricional, dos níveis de cálcio e fósforo, da idade do animal e das características da enzima. Dietas com trigo, triguilho, triticale, sorgo ou milheto oferecem mais fitato e mais oportunidade; dietas à base de milho e soja, menos. No frango de corte, as doses saíram de 500 para 2.000 FTU, mas a dose economicamente correta pode ser 500, 1.000 ou 1.500 FTU, conforme a dieta.
Há também um alerta histórico. Nas primeiras tentativas de substituição total ou parcial das fontes convencionais, a estratégia foi apenas superdosar fitase. O resultado foram problemas metabólicos: fadiga de gaiola, mortalidade de poedeiras, queda na produção de ovos e até infarto do miocárdio, já que o fósforo participa ativamente da formação do ATP. A fitase libera fósforo; ela não cria fósforo. A exigência de fósforo digestível para manutenção e produção permanece.
Acidificação, vitaminas e boro: preparar o organismo para usar o fósforo
Liberar fósforo não basta se o organismo não estiver preparado para absorvê-lo, transportá-lo, metabolizá-lo e depositá-lo. A vitamina D participa da homeostase de cálcio e fósforo e da regulação de sua absorção intestinal; a vitamina K ativa proteínas como a osteocalcina, envolvida na mobilização e na deposição óssea desses minerais; e o boro atua como coadjuvante do metabolismo mineral e ósseo. Nenhum deles é fonte de fósforo: são otimizadores.
Os ácidos cítrico e fosfórico contribuem para a acidificação e a solubilização mineral. Mais do que isso, reduzem a quelatação do fósforo livre, liberado pela fitase, com zinco, manganês e selênio, perda que termina nas fezes. Nilton faz uma distinção importante: o ácido não "ativa" a fitase; ele cria uma faixa de pH mais favorável para que a enzima expresse seu potencial ao longo do trato gastrointestinal.
Nanofosfato e a próxima geração de minerais
O nanofosfato trabalha com partículas cerca de dez vezes menores que as do fosfato bicálcico, o que amplia a área de contato no intestino. Nos dados usados no desenvolvimento da matriz do produto, a biodisponibilidade fica entre 140% e 150% em relação ao fosfato de cálcio: uma fonte com 19% de fósforo passa a entregar o equivalente a 26,6% a 28,5%. Nilton ressalta que esse desempenho não vale para qualquer nanofosfato; depende da tecnologia e da pesquisa por trás do produto.
O que isso muda na formulação
A integração dessas ferramentas no conceito do Nutrafós, da Nuctramix, permite substituir de 40 a 50 kg de farinha de carne ou de 8 a 15 kg de fosfato bicálcico por tonelada por cerca de 1 kg do aditivo. Numa simulação específica, a redução foi de R$ 63,00 por tonelada; na média, a faixa esperada é de R$ 50 a R$ 70, conforme o custo das matérias-primas de cada cliente. Numa operação com 1 milhão de poedeiras consumindo 120 g por dia, são 3.600 toneladas de ração por mês e cerca de R$ 226 mil de economia mensal, mantendo o desempenho. O ganho mais estratégico, porém, é reduzir a dependência de uma única fonte de fósforo e estabilizar o resultado de campo.
Para quem formula, as implicações são claras: conhecer a composição real das matérias-primas, ajustar a relação cálcio:fósforo disponível, escolher a fitase pelo valor recuperado, dimensionar a dose conforme o substrato e combinar fontes verdadeiras de fósforo com condições adequadas de absorção. Menos fósforo suplementado sem necessidade também significa menos fósforo excretado no ambiente.
Ouça o episódio completo
Estamos saindo de uma nutrição baseada em quantidade e entrando numa nutrição baseada em eficiência. No episódio do O Aviário gravado em Caruaru (PE), Wellinton Molinetti conversa com Nilton Borges e o Dr. Felipe Bastos, da Nuctramix, sobre fitase, farinha de carne, nanofosfato e o novo papel do fósforo na nutrição de aves e suínos 🎙️🐔
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