Gestão na Suinocultura: Os Pilares Que Sustentam um Negócio de R$ 61 Bilhões
16 de julho de 2026
Por que produtividade sem gestão não se sustenta — e o que separa quem atravessa a crise de quem quebra

A suinocultura brasileira alcançou um patamar que exige uma nova mentalidade de quem atua na cadeia. Não basta produzir: é preciso gerir. Foi essa a mensagem central do médico veterinário Marcelo Locatelli no episódio do SuinoCast conduzido por Vinicius Cantarelli. Consultor com passagem por diferentes sistemas de produção e experiência internacional, Locatelli defende que a competitividade do setor depende menos de fórmulas mágicas e mais da organização metódica de peças que precisam se encaixar. "Você tem que saber onde está hoje e aonde quer chegar amanhã", resume.
A dimensão de um setor que não para de crescer
Entender a gestão começa por dimensionar o negócio. O Brasil é hoje o quarto maior produtor mundial de suínos e, no ano passado, conquistou a terceira posição entre os maiores exportadores de carne suína do planeta, ultrapassando o Canadá. Foram mais de 5,5 milhões de toneladas produzidas, o equivalente a uma cifra de R$ 61 bilhões. O rebanho de matrizes alojadas ultrapassa 2,17 milhões de cabeças, distribuídas em três sistemas: integração (cerca de 44%), cooperativismo (33%) e produção independente (23%). Só a região Sul — Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná — concentra mais de 63% das matrizes do país.
Esse vigor, porém, tem contrapartida. Nos últimos cinco anos, o país alojou mais de 230 mil novas matrizes, um crescimento de 11% — algo próximo de 2% ao ano, ou mais de 40 mil fêmeas anuais. O resultado é previsível: mais animais, mais carne no mercado e a retração de preços que o produtor sente hoje. "Nós temos que saber onde estamos e como estamos", pontua Locatelli. Gestão, nesse contexto, não é luxo: é a bússola que traduz o tamanho do mercado em decisão.
Os pilares que alicerçam a produção
Para Locatelli, a suinocultura é um entremeado de fatores interligados, e nenhum deles é mais ou menos importante — todos precisam estar conectados. Quando um elo enfraquece, a cadeia inteira perde produtividade ou lucratividade. Ele elenca os pilares centrais: genética, nutrição, sanidade, instalações e ambiência, bem-estar animal, pessoas e mão de obra, e, cada vez mais, tecnologia.
A analogia proposta no episódio é a de um quebra-cabeça de mil peças: genética, nutrição, sanidade, ambiência, equipe e novas tecnologias são conjuntos de peças que só produzem o cenário ideal quando montados com método. "O princípio da gestão é a organização dessas peças." Sistemas que acertam a genética e a nutrição, mas negligenciam o bem-estar ou a gestão de pessoas, simplesmente não entregam o resultado que a soma dos investimentos prometia.
Bem-estar animal: de afronta a premissa
Poucos pilares ilustram tão bem a evolução do setor quanto o bem-estar animal. Locatelli lembra que, anos atrás, sugerir que não se cortasse dentes ou cauda dos animais era visto como afronta pelos criadores. Hoje, práticas como a gestação coletiva e a cobrição solta são premissas básicas. Mais do que exigência de mercado, o bem-estar se converteu em ganho produtivo: proporciona melhor desenvolvimento e desempenho dos animais. "Não se fala e não se faz mais suinocultura sem pensar em bem-estar animal." O mesmo raciocínio vale para a ambiência: de nada adianta a melhor genética, a melhor nutrição e o melhor status sanitário se a creche não tem cortina nem aquecimento no auge do inverno.
Indicadores por fase: da maternidade à terminação
Se gestão é saber onde se está, os indicadores são o instrumento de medição. Locatelli detalha metas por fase produtiva. Na maternidade, o ganho de peso diário (GPD) do leitão deve ficar acima de 220 gramas, e o desmame — hoje acima de 25 dias — deve entregar peso médio superior a 7,5 kg, com atenção à uniformidade. Na creche, o GPD deve superar 430 gramas e a conversão alimentar ficar abaixo de 1,42, ao longo de 32 a 40 dias de alojamento, sem perder de vista mortalidade e desclassificados.
Na terminação, os quatro indicadores que ele acompanha são uniformidade, mortalidade, ganho de peso e conversão alimentar. A média nacional de conversão gira em torno de 2,32 a 2,35 para 100 kg, com GPD acima de 950 gramas — números que aproximam o suíno da eficiência do frango, algo impensável décadas atrás, quando uma conversão de 2,7 a 2,8 já era celebrada. Um detalhe de manejo revela a lógica de gestão: a partir dos 70 kg, Locatelli faz controle alimentar, porque a curva de crescimento do tecido muscular difere da do tecido adiposo — restringir a deposição de gordura permite que o músculo se sobressaia.
Gestão de crise: no difícil, vende-se parceria
O ponto mais alto do episódio talvez seja a leitura de mercado. A suinocultura é cíclica, e a gestão da crise é, para Locatelli, a principal competência do produtor. Sua síntese é direta: "Quando o mercado está bom, nós vendemos preço. Quando o mercado está difícil, nós vendemos parceria." A recomendação vale para integrados e independentes: construir e sustentar relações comerciais — com empresas, cooperativas e abatedouros — nos ciclos de bonança e de escassez.
A lógica se repete no comércio externo. O Brasil exportou 1,51 milhão de toneladas para 94 países, diversificação que blindou o setor da antiga dependência de um único comprador. "Eu sou da época em que, se a Rússia parava de comprar, era o caos instalado", relembra. Hoje, Japão, Filipinas e Malásia se revezam na liderança das compras mês a mês. A pulverização — de clientes externos e de parceiros internos — é, ela própria, uma estratégia de gestão de risco.
O futuro pede o básico bem-feito
Perguntado sobre tendências, Locatelli equilibra otimismo e pragmatismo. Novas tecnologias, biosseguridade reforçada, bem-estar animal e até movimentos de consumo — como o efeito das "canetas emagrecedoras" sobre a demanda por proteína animal — vão continuar moldando o setor. Mas o alicerce permanece: "Não podemos esquecer de fazer o feijão com arroz, o básico muito bem feito." Reserva de caixa nos momentos bons, como 2025, e preparo para os desafios que virão. Com os pilares ancorados uns aos outros e as parcerias bem estruturadas, o negócio, em suas palavras, só tende a crescer.
Ouça o episódio completo
Marcelo Locatelli e o host Vinicius Cantarelli aprofundam cada um desses pilares, com números e casos de campo, no episódio do SuinoCast. 🎧🐷 Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.
