Avicultura

    Influenza aviária no Brasil: o que 190 focos e 250 mil análises revelam sobre a nova fase da vigilância

    2 de setembro de 2026

    O vírus mudou de rota, de genótipo e de hospedeiro em três anos. A pergunta é se o plano de biosseguridade da sua granja acompanhou essa mudança.

    Influenza aviária no Brasil: o que 190 focos e 250 mil análises revelam sobre a nova fase da vigilância

    Durante anos, a influenza aviária foi tratada no Brasil como um risco externo — algo que se acompanhava em relatórios internacionais e em notificações de outros países. Isso terminou em maio de 2023, com o primeiro foco confirmado em território nacional. De lá para cá, o país acumulou 190 focos, sendo 15 em aves de subsistência e apenas um em aves comerciais, o episódio pontual de Montenegro. A grande maioria segue concentrada em aves silvestres. O número em si já diz muito sobre a eficiência da resposta oficial e da biosseguridade do setor produtivo. Mas o dado que deveria reorganizar a rotina do profissional de campo não é o total de focos: é o que mudou dentro desse total.

    H2 | A curva epidemiológica e a janela de maior risco

    A leitura da curva mostra um pico de focos em junho de 2023, seguido de redução ao longo de 2024, leve aumento no número de casos em 2025 e quatro focos registrados em 2026 — dois em aves de subsistência e dois em aves silvestres. Mais útil do que o valor absoluto é o recorte temporal: ao longo desses anos, a maior concentração de focos ocorreu entre maio e setembro, período compatível com os padrões de migração das aves silvestres. Para o serviço veterinário oficial, isso define calendário de alerta. Para a integradora e para a granja, deveria definir calendário de auditoria de biosseguridade — e raramente define.

    H2 | O que a vigilância genômica passou a responder

    Com a introdução do vírus, o MAPA integrou a vigilância genômica ao Sistema Nacional de Vigilância de Influenza Aviária e Doença de Newcastle como ferramenta complementar à investigação epidemiológica. A epidemiologia clássica responde onde ocorreu a doença, por que ocorreu e quais fatores de risco estavam presentes. A genômica avança sobre outras perguntas: qual a provável origem do vírus, como ele evoluiu desde a introdução, se há diversidade genética circulante e quais mutações apareceram. O ganho real está na integração das duas camadas, que permite identificar fatores de dispersão e disseminação. Essa capacidade se apoia em estrutura laboratorial — as análises correm na rede oficial do LFDA, com o laboratório de Campinas como referência para influenza aviária, atendendo inclusive demandas de outros países da América do Sul — e em equipe especializada, incluindo bioinformatas.

    H2 | Múltiplas introduções: o vírus de 2025 não é o de 2023

    Entre 2023 e 2024, as amostras brasileiras eram muito similares entre si e também similares a amostras de focos oriundos da América do Sul, o que aponta para introdução por aves infectadas da rota do Pacífico. Em 2025 esse parâmetro se alterou: parte das amostras manteve similaridade sul-americana, enquanto outra parte passou a se assemelhar a amostras da América do Norte — inclusive às dos focos em vacas leiteiras nos Estados Unidos. A conclusão técnica é direta: houve múltiplas introduções, por rotas distintas de disseminação. Soma-se a isso um sinal que exige atenção: as amostras de 2023 tinham genótipo conhecido, o B3.2, enquanto a partir de 2025 muitas amostras não tiveram o genótipo identificado. Existe diversidade genética circulando, e o vírus introduzido em 2023 não é o mesmo que entrou em 2025.

    H2 | A inversão do perfil de hospedeiros e a interiorização dos focos

    O deslocamento mais relevante para quem trabalha em granja é o do hospedeiro. Em 2023 e 2024, cerca de 90% dos focos ocorreram em aves aquáticas — patos, marrecos e caradriformes, como os trinta-réis, reservatórios reconhecidos do vírus pela literatura científica e pelos padrões internacionais. Em 2025 houve inversão do perfil epidemiológico: 40% dos focos passaram a ocorrer em aves terrestres, sobretudo domésticas, proporção que subiu para 50% em 2026. Simultaneamente, os focos deixaram de se concentrar na faixa costeira e chegaram ao interior, com registros em aves de subsistência no Ceará, em Goiás e no Mato Grosso. O perfil predominantemente aquático, que orientava a percepção de risco de boa parte do setor, deixou de ser o que se encontra no campo.

    H2 | Hospedeiros-ponte: o elo entre o banhado e o galpão

    A pergunta que decorre dessa inversão é operacional: como o vírus sai do ambiente aquático e chega à propriedade rural? A hipótese trabalhada é a das espécies hospedeiro-ponte — aves que mantêm contato tanto com o ambiente aquático quanto com o ambiente rural. Entram nessa categoria as garças, que concentraram um número expressivo de focos, as aves rapinantes e até passeriformes de presença trivial no entorno de granjas, como o quero-quero e o João de Barro. A convidada é honesta quanto ao estágio da evidência: ainda falta comprovação robusta. Mas a implicação prática independe da confirmação final. A falsa percepção de segurança — 'aqui no interior a ave migratória não chega' — pode ser verdadeira e irrelevante ao mesmo tempo, porque a migratória não precisa chegar: basta contaminar outra ave que chega.

    H2 | Vigilância baseada em risco: como o dado vira coleta no campo

    O maior incremento gerado por esses dados foi a migração para uma vigilância baseada em risco. Até então, o desenho usava principalmente rotas de migração. Com a constatação de que não é só a ave migratória que carrega o vírus no país, o escopo foi ampliado para o mapeamento de áreas de concentração de aves, onde as aquáticas podem contaminar espécies com trânsito para o interior. O trabalho envolveu parcerias com o Ministério do Meio Ambiente, detentor das informações sobre fauna silvestre, e com o Pan-aftosa, para compor o quadro ecológico dessas espécies. Do mapeamento saem as áreas prioritárias, e é aí que entra o serviço veterinário estadual, que vai às propriedades e granjas coletar amostras de aves sadias — vigilância ativa destinada a demonstrar status sanitário, não apenas a reagir a suspeitas.

    H2 | O que muda na biosseguridade da granja

    Aqui vale registrar a resposta mais importante do episódio: em essência, nada muda — os dados apenas atualizam o nível de exigência. A principal medida de prevenção continua sendo a implementação efetiva do plano de biosseguridade. O que os achados acrescentam é a necessidade de tratar o entorno com o mesmo rigor aplicado ao interior do galpão, por meio do que se tem chamado de manejo da vida silvestre. Não se trata de manejo populacional — as aves são livres e isso é inviável. Trata-se de eliminar atrativos ao redor da granja: nenhum acúmulo de alimento, esterqueiras bem fechadas, nenhum acúmulo de água que aproxime aves das instalações e, prioritariamente, nenhuma nidificação na estrutura física da granja. São quatro pontos verificáveis em uma ronda semanal, integralmente sob controle da equipe.

    H2 | Preparação, vigilância e biosseguridade

    A síntese das lições dos últimos três anos cabe em três palavras. Preparação, que envolve tanto os simulados e o aprendizado do serviço veterinário oficial no atendimento a focos quanto os planos de contingência do setor produtivo, que precisam ser mantidos atualizados. Vigilância, sustentada por capacidade laboratorial robusta e por escala: são mais de 250 mil análises realizadas em três anos para influenza aviária e doença de Newcastle, na busca ativa do vírus, com o duplo objetivo de detectar precocemente e comprovar status sanitário — o que sustenta a certificação que abre mercados. E biosseguridade, que segue como a única forma de proteger o plantel e, com ele, o patrimônio da avicultura brasileira. Nada disso funciona sem compromisso do setor produtivo, e há espaço para avançar.

    🎙️🐔 Ouça o episódio completo do O Aviário com a PhD. Denise Russi Rodrigues, Auditora Fiscal Federal Agropecuária da Coordenação de Sanidade Avícola do MAPA, ao lado do host Dr. Marcos Café. Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.

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