Suinocultura

    Javali na Suinocultura: o Risco Sanitário que Está Fora do Portão

    2 de abril de 2026

    Quando se fala em biosseguridade na suinocultura, o foco quase sempre recai sobre o que acontece dentro da granja — fluxo de pessoas, qualidade da água, manejo da cama, vazio sanitário. São medidas essenciais. Mas existe um risco que cresce fora da cerca perimetral e que exige atenção crescente de quem trabalha com sanidade suína: […]

    Javali na Suinocultura: o Risco Sanitário que Está Fora do Portão

    Quando se fala em biosseguridade na suinocultura, o foco quase sempre recai sobre o que acontece dentro da granja — fluxo de pessoas, qualidade da água, manejo da cama, vazio sanitário. São medidas essenciais. Mas existe um risco que cresce fora da cerca perimetral e que exige atenção crescente de quem trabalha com sanidade suína: o javali.

    Por que o javali é um problema sanitário?

    O javali não é um animal exótico distante da realidade produtiva. Ele circula livremente em regiões do Sul do Brasil que concentram alguns dos maiores polos de produção suína do país. E o problema não começa quando ele entra na granja — começa quando ele está perto dela.

    Como reservatório de patógenos, o javali alberga agentes que já circulam no sistema produtivo — Mycoplasma, Estreptococo, entre outros — e pode transmiti-los ao rebanho comercial mesmo sem contato direto. Mas esse é o problema menor. O maior é a capacidade que ele tem de introduzir no sistema algo que a suinocultura brasileira ainda não enfrenta em escala comercial.

    O risco que mantém a sanidade suína em alerta

    O Brasil mantém status sanitário livre de Peste Suína Africana em suínos comerciais. Esse status é um dos pilares que sustenta nossa posição no mercado internacional — o país encerrou 2025 como o terceiro maior exportador mundial de carne suína, com embarques recordes de 1,51 milhão de toneladas.

    O que poucos discutem com a profundidade necessária é que o javali já apresenta sorologia positiva para o vírus da PSA em outras regiões do mundo. E o javali é o único animal que elimina ativamente o vírus no ambiente. Nos outros hospedeiros, o vírus circula sem eliminação — o que torna o controle ainda mais complexo.

    Se a PSA entrar no rebanho comercial brasileiro, o impacto vai muito além da granja. Para o frigorífico, para o porto, para toda a cadeia. Só pelo porto de Itajaí, 45% do volume exportado é carne de suínos e aves. Uma ruptura sanitária desse porte afeta produtores, transportadores, frigoríficos, toda a cadeia de insumos — e o médico veterinário que atua nesse setor.

    Saúde única como prática, não como conceito

    Tratar o javali como problema ambiental ou como pauta de congresso é um equívoco. Animal de vida livre, suíno comercial e ser humano compartilham patógenos — e o médico veterinário que entende essa interface sai na frente no diagnóstico diferencial, na conversa com o produtor e na construção de protocolos de biosseguridade mais robustos.

    Controlar o javali é difícil. Mas conhecer o risco que ele representa é o primeiro passo para não ser surpreendido por ele.


    Esse tema foi discutido com profundidade no episódio #364 do SuinoCast, com a Profa. Dra. Sandra Davi Traverso, professora titular de Sanidade Suína da UDESC. Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.

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