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    Levedura viva em ruminantes: por que a cepa, e não a espécie, determina a resposta em digestibilidade de fibra

    15 de setembro de 2026

    Dezenove cepas de Saccharomyces cerevisiae, um mesmo teste de degradabilidade de fibra e três desfechos distintos — o que isso exige do nutricionista na hora de posicionar um aditivo.

    Levedura viva em ruminantes: por que a cepa, e não a espécie, determina a resposta em digestibilidade de fibra

    O problema começa na definição

    No Brasil, convencionou-se chamar de probiótico qualquer micro-organismo vivo. A definição técnica é mais exigente: para ser probiótico, o micro-organismo precisa estar vivo e trazer benefício comprovado ao hospedeiro. Há ainda uma confusão persistente de que probiótico se restringe a bactérias — quando, em ruminantes, o uso majoritário é de levedura. Essa imprecisão terminológica não seria grave se não desaguasse em decisão de formulação. Ela desagua. O profissional que compra “levedura viva” genérica assume que está comprando um efeito, quando está comprando apenas uma categoria.
    Foi exatamente esse o ponto central do episódio do Mais Rúmen Podcast gravado durante a Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, com Sidney Lemos e Lucas Mari, da Lallemand Animal Nutrition. A tese dos dois é resumida numa frase que atravessa toda a conversa: micro-organismo tem CPF.

    Os três modos de ação da levedura viva no rúmen

    Lucas Mari organiza o mecanismo em três frentes principais. A primeira é a competição com bactérias produtoras de lactato, resultando em menor produção de lactato ruminal e em um ambiente de pH mais seguro para populações sensíveis — notadamente as fibrolíticas.
    A segunda é o consumo de oxigênio. Ainda que o rúmen seja um ambiente reduzido, há ingresso constante de oxigênio pelo consumo de alimento, pelo consumo de água e pela circulação arterial, com o sangue arterial chegando com alta proporção de O₂ e difundindo do meio mais concentrado para o menos concentrado. Oxigênio é deletério para boa parte das bactérias fibrolíticas, e a levedura viva atua como sequestrante metabólico desse oxigênio residual.
    A terceira frente é a produção de metabólitos e peptídeos que acionam populações capazes de converter lactato a propionato. A bactéria mais conhecida nessa função é a Megasphaera elsdenii, mas não é a única. O somatório dos três mecanismos resulta em maior população de bactérias fibrolíticas, melhor ambiente ruminal, maior aporte de proteína metabolizável ao intestino e impacto direto sobre a digestibilidade da fibra.

    A prova da especificidade: 19 cepas, três desfechos

    O argumento mais forte do episódio não é conceitual, é experimental. Dezenove cepas de Saccharomyces cerevisiae foram testadas para melhorar a degradabilidade de fibra por Ruminococcus. Algumas duplicaram a degradabilidade. Outras não produziram efeito algum. Outras pioraram o desempenho. Todas pertencem à mesma espécie.
    A explicação está na finalidade para a qual cada cepa foi selecionada. A Lallemand opera unidades de negócio em panificação, cervejaria, enologia e café — e foi justamente a enologia que consolidou, dentro da empresa, o conceito de seleção por cepa, posteriormente transferido para nutrição animal. Uma levedura selecionada para floculação de malte na cervejaria ou para produção de CO₂ na panificação não tem qualquer razão para funcionar no rúmen. O banco da companhia reúne cerca de 3.000 cepas, e a seleção da cepa hoje utilizada em ruminantes consumiu cinco anos de trabalho, com dois critérios simultâneos: eficiência no controle de lactato e eficiência no aumento da população microbiana fibrolítica. Segundo Sidney Lemos, boa parte do que circula no mercado atende a um critério, ou a nenhum, sob o rótulo genérico de levedura viva.

    Onde o ganho é maior: a contraintuição da fibra ruim

    Um estudo conduzido em Pirassununga, no doutorado de Danilo Souza, com participação de Luiz Felipe Prado e Silva, avaliou cinco forragens distintas: capim-marandu colhido verde, mombaça, uma silagem de milho com baixo teor de amido, silagem de cana e feno de tifton. Foram oito incubações ruminais, realizadas a cada 45 dias, buscando cobrir a variação sazonal. Quatro bactérias fibrolíticas-alvo foram monitoradas — entre elas Butyrivibrio fibrisolvens, Ruminococcus e Fibrobacter succinogenes — e o aumento populacional foi consistentemente positivo, independentemente da época do ano e do regime de chuva.
    O achado de maior utilidade prática, no entanto, é outro: a resposta percentual é sempre maior na fibra de pior qualidade. O padrão está catalogado em quase 400 amostras de forragem já conduzidas em estudos. Lucas Mari faz a ressalva correta — um ganho percentual maior sobre uma fibra ruim pode representar, em termos energéticos absolutos, menos do que um ganho percentual menor sobre uma fibra de melhor qualidade. Ainda assim, em termos comparativos, o posicionamento é claro: bagaço de cana, pasto diferido, forragem de seca e coprodutos fibrosos são os cenários onde a resposta se manifesta com mais intensidade relativa.

    Implicação prática: pasto, seca e coproduto

    Sidney Lemos traduz isso para a realidade brasileira. Na seca, o gargalo é consumo; melhorar a digestibilidade da fibra permite que o animal rumine mais, esvazie o rúmen mais rápido e volte a comer, o que se converte em ganho de peso e rendimento de carcaça. Nas águas, ainda que o animal seja naturalmente mais eficiente, os pastos tropicais de braquiária e panicum mantêm alto teor de fibra e lignina — o que preserva a janela de resposta ao longo do ano inteiro.
    Some-se a isso o movimento estrutural do mercado: dietas brasileiras cada vez mais concentradas, porém não necessariamente à base de grão. Casquinha de soja, caroço e capulho de algodão, torta, polpa cítrica peletizada e o volume crescente de DDG oriundo das usinas de etanol de milho compõem uma matriz de fibra não-forragem que só cresce. É precisamente nesse tipo de substrato que a melhoria de digestibilidade tem maior expressão percentual.

    Viabilidade: o que acontece entre a fábrica e o cocho

    Nada disso se sustenta se a levedura não chegar viva. O produto passa por manipulação, entra no premix, segue para o misturador, é embalado, transportado e só então servido. Existem ingredientes de premix e de suplemento mineral que são agressivos à levedura, e há o processo de peletização. Leveduras são mais resistentes que a maioria das bactérias — a parede celular mais espessa ajuda —, mas não são invulneráveis. No campo, água e sol representam risco adicional: a levedura está ativa porém dormente, e reativa ao contato com água, o que encurta a viabilidade após uma chuva no cocho. A resposta industrial passa por adensamento e recobrimento da levedura para suportar a peletização e estabilizar a contagem até o consumo.

    O que isso muda na recomendação

    A conclusão operacional é objetiva. Ao avaliar um aditivo microbiano, três perguntas precisam ter resposta documentada: qual é a cepa, em qual dose ela foi testada e qual efeito foi comprovado — no caso discutido, com mais de 140 trabalhos publicados. Estar viva é pré-requisito, não diferencial. Sem esse conjunto, a escolha se apoia em rótulo, e a discussão com o produtor perde sustentação técnica.
    O episódio ainda avança sobre fronteiras pouco exploradas: o mercado de cria, com cerca de 70 milhões de cabeças de fêmeas em suplementação a pasto e efeitos potenciais sobre escore corporal, taxa reprodutiva e desempenho da cria; o posicionamento diante do banimento de virginiamicina e bacitracina e do debate latente sobre ionóforos; e a saúde intestinal em ruminantes, com Saccharomyces cerevisiae var. boulardii aplicada à adaptação de confinamento, transporte e marcadores inflamatórios — um campo já consolidado em monogástricos após a proibição do óxido de zinco no desmame de leitões na Europa.

    Ouça o episódio completo

    Sidney Lemos e Lucas Mari conversam com o host Diogo Fleury Costa sobre especificidade de cepa, digestibilidade de FDN, viabilidade industrial e as próximas fronteiras dos micro-organismos na pecuária brasileira. Dado bem interpretado tira a operação do escuro. 🎙️🐄

    Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.

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