Avicultura

    Liderança, comunicação e mão de obra: por que o próximo salto da avicultura brasileira depende de pessoas

    12 de agosto de 2026

    A avicultura mais tecnificada da história ainda depende de quem aperta o botão — e é exatamente aí que o setor está perdendo eficiência.

    Liderança, comunicação e mão de obra: por que o próximo salto da avicultura brasileira depende de pessoas

    Existe uma inversão silenciosa acontecendo na avicultura brasileira. Durante duas décadas, o profissional de campo foi formado, cobrado e promovido por indicadores técnicos: conversão alimentar, ganho de peso diário, mortalidade, uniformidade de lote, título vacinal. São métricas legítimas e continuam sendo o centro do negócio. O problema é que elas passaram a explicar uma fração cada vez menor da variação de resultado entre granjas com o mesmo genótipo, a mesma ração, o mesmo programa sanitário e o mesmo padrão de galpão. O que sobra na conta, quase sempre, é gente.

    No episódio de O Aviário com a Me. Eva Hunka, conduzido por Gabriela Bittencourt, esse diagnóstico aparece sem eufemismo. Médica veterinária pela UFRPE, mestre em Medicina Preventiva pela Unesp Botucatu e com mais de 20 anos de mercado avícola transitando entre área técnica, comercial e marketing, Eva desloca a conversa do patógeno para o organograma — e mostra que essa não é uma discussão "de RH", é uma discussão de eficiência produtiva.

    O Brasil é um país de vários países. E a avicultura, de várias aviculturas

    Eva usa uma imagem precisa: a avicultura brasileira não é um sistema, são vários coexistindo. Existe o galpão altamente automatizado, com controle de ambiência, sensores e painéis que boa parte da equipe operacional não sabe interpretar. E existe, ao mesmo tempo, o aviário ainda dependente de cortina manual — "quando a cortina está funcionando". A maior parte do parque já está tecnificada, e é por isso que o país entrega o volume de proteína que entrega. Mas o pequeno produtor segue relevante para determinadas regiões e para o abastecimento do sistema como um todo.

    A consequência técnica dessa heterogeneidade é direta: não existe protocolo único de assistência. O extensionista precisa calibrar linguagem, profundidade e ritmo de implementação conforme o nível tecnológico da unidade — e essa calibragem é uma competência de comunicação, não de sanidade.

    O gargalo mudou de lugar: automatizamos o galpão, não a gestão

    A tecnificação elevou o piso de qualificação exigido do colaborador de granja. Aviário simples era operado por mão de obra de baixíssima instrução; aviário automatizado exige gente alfabetizada tecnologicamente. Só que essa mão de obra não está disponível na velocidade em que os galpões estão sendo modernizados. Eva descreve a avicultura como um setor inóspito para quem busca previsibilidade: domingo é domingo, a ave come todo dia, o manejo acontece todo dia — e isso concorre com uma geração que sonha com trabalho remoto.

    O quadro se agrava porque a base operacional é flutuante. Alta rotatividade impede a consolidação de curva de aprendizado dentro da unidade, e cada troca recomeça o ciclo de treinamento do zero. Traduzindo para o indicador: perda de padronização de manejo, aumento de variabilidade entre lotes e maior dependência da presença física do técnico. O gargalo não é o equipamento. É a capacidade de formar e reter quem opera o equipamento.

    Comunicação tem quatro estágios — e o agro costuma parar no terceiro

    Este é, tecnicamente, o ponto mais alto da conversa. Eva decompõe o processo comunicativo em quatro etapas encadeadas: primeiro a ideia se forma na cabeça; depois ela precisa ser convertida em palavra; depois a palavra precisa efetivamente ser dita; e só então — quarto estágio — a comunicação se completa, quando o interlocutor compreende a mensagem. O agro, diz ela, para no terceiro estágio: confunde falar com comunicar.

    A frase que sintetiza o episódio nasce daí: existe muito curso de oratória e quase nenhum curso de "escutatória". Sem escuta ativa, o técnico conduz uma visita inteira, recebe o aceno de concordância do produtor, vai embora e a conduta não é executada. Não houve desobediência — houve ausência de compreensão. O custo disso é medido em lote perdido, protocolo vacinal aplicado fora de janela e biosseguridade relaxada.

    Andragogia: você não está ensinando criança, está instruindo adulto

    Eva insiste que na avicultura o cenário é adulto instruindo adulto — e que a cabeça de um adulto não é uma caixa vazia. Ela já chega ocupada por milhares de estímulos concorrentes. O exemplo que ela dá é a realidade de qualquer extensionista: você está explicando manejo e o produtor está de corpo presente, mas com a cabeça no trator quebrado.

    A recomendação prática é uma triagem antes da técnica. Primeiro: é possível tirar a cabeça dele do trator? Se o problema concorrente for maior que tudo, a melhor decisão profissional é abortar a missão e remarcar a conversa. Segundo: se for possível, use múltiplos pontos de contato — apoio visual, gatilho emocional, senso de humor — e conduza do amplo para o específico, para que o interlocutor entenda por que aquela conversa importa antes de receber o detalhe técnico. Ela acrescenta uma crítica honesta ao setor: de andragogia se fala muito mais do que se pratica.

    Da Geração Z ao Baby Boomer: liderar em quatro gerações simultâneas

    A avicultura tem hoje, dentro da mesma equipe, profissionais da Geração Z até Baby Boomers em atuação. O atrito é estrutural: a geração mais nova se conecta a princípios, crenças e propósitos antes de se conectar a tarefas; a geração mais experiente organiza o trabalho pela entrega e pelo senso de urgência. Eva atribui o papel de construir essa ponte ao líder, não ao liderado — e propõe uma gestão individualizada, com plano e linguagem próprios para cada pessoa da equipe.

    Ela também sinaliza um dado comportamental relevante para recrutamento: a nova geração chega com nível de ansiedade alto e expectativa de progressão anual que a estrutura da maioria das empresas não comporta. Ignorar isso gera turnover; nomear isso com transparência gera retenção.

    Recrutamento: pare de contratar semelhança

    No processo seletivo, Eva desmonta a ideia de que a entrevista é um retrato fiel do candidato. O dia da entrevista pode pegar a pessoa emocionalmente desestabilizada, saindo do expediente atual, nervosa. Por isso ela trabalha com mais de um ponto de entrevista, decisão compartilhada entre dois ou três avaliadores e uso de testes de perfil comportamental — não para excluir, mas para compor.

    O objetivo declarado é montar equipe complementar: o analítico, o incisivo, o organizado e o comunicador ocupando funções distintas dentro do mesmo time. Ela lembra ainda que o risco é bilateral — a empresa aposta no candidato e o candidato aposta na empresa, muitas vezes pedindo demissão de outro emprego para assumir a vaga. Transparência, aqui, é ferramenta de redução de turnover.

    Liderança como maternidade: elogiar em público, penalizar no privado

    A analogia central da mensagem final é a da maternidade. A mãe sabe ser dura quando precisa e sabe acolher quando precisa; defende o filho para fora e resolve o problema dentro de casa. Traduzido para gestão de equipe de granja, isso significa elogiar em público e penalizar no privado, alternar com clareza o papel de amigo e o papel de líder, e sustentar a cobrança sem romper o vínculo. Quando a relação foi construída de forma individualizada, o momento de dureza é lido como necessário — e não como perseguição.

    O espaço vazio de informação sempre será preenchido

    O último bloco do episódio conecta gestão de pessoas com reputação setorial. Eva afirma que o agro comunica muito bem com quem é do agro e comunica mal com quem não é. Diante da pergunta sobre hormônio em frango, o setor responde com excesso técnico — e o leigo desliga. Nesse vácuo entram as narrativas fantásticas: o ovo de plástico, o vídeo de ovo decorativo apresentado como alimento, a cena de abate rudimentar de 20 anos atrás vendida como padrão da indústria.

    A tese dela é operacional: sempre que existe um espaço a ser preenchido, ele será preenchido com informação — de boa ou de má qualidade. Se o setor não ocupa esse espaço com conteúdo correto, de fonte confiável e com menos tecniquês, alguém ocupa com desinformação, porque é isso que monetiza em rede social. E o custo, como ela resume, é caro para toda a cadeia.

    O que isso muda na sua rotina de campo

    Três desdobramentos práticos para o profissional de avicultura. Primeiro: trate comunicação como competência técnica auditável — verifique compreensão antes de encerrar a visita, não apenas concordância. Segundo: leia a disponibilidade cognitiva do produtor antes de despejar protocolo; remarcar é decisão técnica, não fraqueza. Terceiro: ao montar ou influenciar a composição do time, busque complementaridade comportamental em vez de conforto de semelhança — é o que sustenta padronização de manejo quando você não está na granja.

    Sanidade e tecnologia continuam sendo condição necessária. Deixaram apenas de ser condição suficiente.

    🎙️🐔 Ouça o episódio completo de O Aviário com a Me. Eva Hunka, conduzido por Gabriela Bittencourt. Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.

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