Mitos e verdades sobre aditivos na pecuária de corte: classificação, regulação e eficiência ruminal
20 de outubro de 2026
Por que colocar todos os aditivos no mesmo balaio é o erro mais caro da nutrição de bovinos

O mercado brasileiro de aditivos para bovinos de corte é um dos mais diversos do mundo: ionóforos, não ionóforos, produtos naturais e uma longa lista de produtos aditivados disputam espaço no cocho. Essa abundância tem um efeito colateral perigoso: a tendência de tratar tudo como equivalente, seja para defender, seja para condenar. No episódio do Mais Rúmen Podcast, Diogo Fleury conversa com Rodrigo Marques, professor da Virginia Tech e ex-responsável pelos aditivos da Elanco no Brasil, sobre o que é mito e o que é verdade nesse universo. A conclusão é direta: sem entender classificação, modo de ação e evidência publicada, o nutricionista decide no escuro.
Classificação: o ponto de partida que quase ninguém olha
A Organização Mundial da Saúde classifica os antimicrobianos em dois grupos: os importantes e os não importantes para a medicina humana. Os ionóforos, como monensina, lasalocida, salinomicina e narasina, são de uso exclusivo animal, sem parentesco próximo ou distante com moléculas usadas em humanos. Já a virginiamicina está entre os considerados importantes, por ter um parente distante empregado como antibiótico na medicina humana. Essa distinção muda completamente o peso do argumento de resistência cruzada e é o primeiro filtro para qualquer discussão regulatória séria.
Modo de ação: físico-química versus alvo genético
Os ionóforos atuam como carreadores de íons. Cada molécula tem sua preferência: a monensina pelo sódio, a lasalocida por sódio e potássio. Ao transportar o íon para o interior da bactéria, sobretudo das Gram-positivas, o ionóforo cria um desbalanço entre os meios intra e extracelular. A água acompanha o sódio, a célula passa a gastar ATP na bomba de sódio e potássio para expulsar o excesso, perde eficiência, esgota a energia e entra em colapso. Rodrigo resume com uma analogia de churrasco: comer carne salgada cria um desbalanço e obriga você a beber alguma coisa. Por ser um mecanismo físico-químico, não há uma mudança genética simples pela qual a bactéria contorne essa ação.
A virginiamicina segue outra lógica: inibe a síntese proteica bacteriana ao se ligar à subunidade 50S do ribossomo e bloquear a ligação peptídica. A flavomicina, outro não ionóforo do mercado, atua sobre o envoltório da célula bacteriana. Em mecanismos com alvo definido, o argumento de que a bactéria pode desenvolver alguma adaptação ganha força, o que ajuda a explicar a postura regulatória mais rígida sobre essas moléculas.
Regulação: Estados Unidos, Europa e a nova barreira comercial
Nos Estados Unidos, a regulação segue a lógica da OMS. Moléculas importantes para a medicina humana exigem a Veterinary Feed Directive, assinada por veterinário, enquanto os ionóforos ainda podem ser usados como promotores de crescimento e como coccidiostáticos. A Europa seguiu outro caminho: o regulamento publicado em 2003 entrou em vigor em 2006 e proibiu ionóforos e não ionóforos como promotores de crescimento. São 20 anos de proibição, motivo pelo qual boa parte das empresas que buscam novas linhas de aditivos, naturais e com outros micro-organismos, está sediada no continente. No começo de setembro, a Europa endureceu ainda mais a barreira comercial para exportadores que usam antibióticos na dieta como promotores de crescimento, um cenário ainda em aberto para o Brasil.
O custo de retirar um ionóforo
Com cerca de 50 anos de mercado e um enorme volume de trabalhos publicados, a monensina segue como controle positivo em boa parte dos experimentos com aditivos. O impacto de sua retirada raramente é dimensionado. O trabalho de Tedeschi (2003) calculou que seria necessário plantar 140 milhões de hectares de milho para cobrir a contribuição energética dos ionóforos em dietas de confinamento. A origem histórica também é sanitária: na década de 1970, segundo Rodrigo, 60% dos animais que entravam no confinamento americano morriam de coccidiose, e a monensina foi adotada primeiro como coccidiostático, antes de se comprovar o ganho de desempenho.
No rúmen, o ionóforo desloca a fermentação para o propionato, rota que consome hidrogênio, em vez de produzir CO2 e H2. Com menos acetato, mais propionato, menor consumo e melhor saúde animal, sobra menos substrato para as metanogênicas. As reduções de metano relatadas chegam a 30% in vitro e cerca de 18% in vivo, com variação conforme a métrica, seja em gramas por dia, seja em intensidade de emissão por quilo de produto. Deixar de usar um aditivo, portanto, pode ser uma perda de oportunidade de ser mais eficiente.
Narasina: dez anos de pesquisa construída para o pasto
A principal limitação da monensina no sal mineral é o controle de consumo, que pode comprometer tanto a ingestão de forragem quanto a de mineral. A narasina chegou ao Brasil em 2015 como estratégia da Elanco para o mercado a pasto, embora Nagaraja (1987) já apontasse seu potencial em dose mais baixa. Os experimentos pioneiros do professor Alexandre Vaz Pires, na Esalq, começaram em cordeiros, com doses de 5, 10 e 15 mg, e 15 mg resultou no maior ganho de peso. Em seguida, com Nelore recebendo mistura mineral nas doses de 0, 6,5 e 13 ppm, a narasina não afetou o consumo de mineral nem o de matéria seca.
Na sequência, trabalho de Polizel comparou 0, 13 e 20 ppm em dietas de alta forragem: 13 ppm foi a melhor dose, com redução de acetato, aumento de propionato e menor amônia ruminal. O efeito se manteve em forragens de alta (cerca de 15% de proteína bruta) e média qualidade (10 a 11%). Com fornecimento a cada 24, 48 ou 72 horas, a narasina ainda segurou a proporção de acetato, e após a retirada da molécula o perfil de propionato alto e acetato baixo persistiu por cinco dias. Em ovinos, também aumentou altura, comprimento e área das papilas ruminais. Em comparações publicadas no Journal of Animal Science, com forragem de média qualidade, a narasina foi superior a outros ionóforos e não ionóforos usados a pasto, e três experimentos a campo em Londrina confirmaram ganho de peso sem efeito sobre o consumo de mineral, tanto nas águas quanto na seca.
Implicação produtiva: sanidade, recria e carcaça
Em um experimento conduzido por Daniel Polizel, com manuscrito em submissão, a narasina foi incluída em suplemento adensado por 84 dias na recria a pasto. A contagem de ovos por grama de fezes caiu de 1.200 para cerca de 150 a 200 em 28 dias, com ganho adicional de quase 140 g/dia. Mesmo após terminação em confinamento com dieta de alto grão sem aditivo, a diferença se manteve na carcaça, com cerca de 11 kg. Outros grupos, incluindo o de Reinaldo Cooke, observaram redução de oocistos semelhante à da monensina e, com narasina no terço final de gestação de novilhas, menos diarreia nos bezerros e desmame cerca de 10 kg mais pesado.
O que muda na prescrição e no manejo
A primeira mudança é abandonar o balaio. Narasina, monensina e outros aditivos têm posições distintas: o sistema de produção, seja pasto, adensado ou confinamento, define qual molécula entrega mais. A segunda é considerar a logística: a tolerância a intervalos de até 72 horas e o efeito residual de cinco dias permitem reduzir idas ao cocho, com economia de diesel, trator e mão de obra, o que é decisivo para o pequeno produtor e para o extensivo. A terceira é exigir evidência: o paper está publicado, com seu valor de P, e cabe ao técnico interpretar se aquilo faz sentido na própria operação. Dado bem interpretado tira a decisão do escuro.
Ouça o episódio completo
Diogo Fleury e Rodrigo Marques aprofundam cada um desses pontos, da classificação da OMS ao futuro da narasina nos Estados Unidos, onde ainda só é aprovada para frangos. Se você prescreve, vende ou avalia aditivos para bovinos de corte, este episódio é obrigatório. 🎙️🐄
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