Não existe pet obeso saudável: por que a obesidade em cães e gatos exige prescrição, monitoramento e ciência
2 de outubro de 2026
O que a balança esconde nos exames de rotina e por que nenhuma caneta substitui uma dieta bem feita

Na rotina clínica, ainda é comum ouvir que um cão "está só gordinho" ou que um gato acima do peso "está ótimo, os exames vieram normais". Essa leitura, confortável para o tutor e muitas vezes para o próprio clínico, atrasa o diagnóstico de uma das enfermidades mais prevalentes da medicina de pequenos animais. No Pet Food Podcast, a Dra. Luciana recebeu o Dr. Rodrigo Olivindo, mestre e doutor pela FMVZ/USP e especialista em Endocrinologia e Metabologia de cães e gatos, para revisar o que a ciência já sabe sobre obesidade pet e o que precisa mudar no consultório.
Obesidade é doença crônica, não condição estética
O conceito de obesidade pet como doença ganhou força em trabalhos recentes, especialmente a partir de 2018, com publicações da medicina interna norte-americana que passaram a tratá-la como afecção decorrente de um balanço energético positivo. Para o Dr. Rodrigo, a mudança de linguagem não é detalhe: a obesidade é uma doença crônica que instala um estado de metainflamação, uma inflamação crônica de baixo grau com repercussões sistêmicas.
Há ainda uma leitura nutricional que costuma surpreender: a obesidade também é um quadro de má nutrição, caracterizado por desequilíbrio de nutrientes por excesso. Por isso, o convidado reforça que, tendo ou não outra doença de base, o sobrepeso e a obesidade já são uma doença e precisam ser encarados como tal, com diagnóstico, conduta terapêutica e acompanhamento.
O mecanismo: resistência insulínica e o risco amplificado no gato
A frase que resume o episódio é direta: não existe paciente obeso saudável. Em cães com sobrepeso e obesidade, estudos já comprovam resistência insulínica, ou seja, prejuízo na ação da insulina em promover a captação de glicose pelas células.
No felino, o cenário se agrava. Além da resistência insulínica, gatos obesos apresentam menor expressão intracelular das proteínas envolvidas no transporte de glicose, como o GLUT4. O resultado é que o gato obeso tem grande facilidade de se tornar diabético, o que exige investigação mais apurada e tratamento voltado à remissão diabética. O Dr. Rodrigo cita ainda outras repercussões associadas: sobrecarga articular e artrose, relatos de colapso de traqueia ligados ao acúmulo de gordura cervical e infiltração gordurosa hepática. Mesmo quando essas alterações não aparecem no primeiro exame, o convidado é enfático: elas tendem a vir.
A Dra. Luciana acrescenta um dado que desmonta uma crença popular: já existem pelo menos 20 doenças relatadas em cães e gatos associadas à obesidade, incluindo alguns tipos de câncer. Enquanto muitos atribuem o câncer ao consumo de ração, ignoram que os animais estão mais obesos, mais sedentários e vivendo mais.
Indicação não é prescrição: o erro começa na primeira vacina
Para o convidado, a construção de um paciente em condição corporal ideal começa na consulta de vacinação. O problema aparece quando o alimento é apenas indicado a partir do que está na prateleira. "A gente não trabalha com indicação, a gente trabalha com prescrição", resume. Prescrever significa definir alimento, quantidade, frequência e duração, com a mesma seriedade de uma prescrição de antibiótico, garantindo desde cedo uma necessidade energética de manutenção adequada.
Essa lógica se conecta ao quinto parâmetro vital: a avaliação nutricional. Não adianta aferir temperatura, frequência cardíaca, respiração e pressão se o estado nutricional não entra no exame físico. Nutrição é uma ciência quantitativa, e o prontuário precisa registrar qual alimento o animal come, em que quantidade e por qual via, em vez do vago "comeu com apetite".
Diagnóstico: o exame clínico ainda é a principal ferramenta
Não existe, na rotina, um exame laboratorial que feche o diagnóstico de sobrepeso ou obesidade. O padrão-ouro de composição corporal em pesquisa é o DEXA, que hoje conta com o primeiro equipamento rodando na América Latina, mas que não é um exame solicitável de rotina. Marcadores inflamatórios mais precoces e técnicas como a ressonância para distribuição de gordura abdominal também seguem restritos à pesquisa.
Por isso, todo clínico precisa dominar o escore de condição corporal e o escore de massa magra. É o exame clínico que sustenta a decisão de tratar e monitorar, mesmo quando colesterol, triglicérides e ultrassonografia ainda estão dentro do esperado.
Restrição calórica sem deficiência nutricional
Um dos pontos mais técnicos da conversa envolve a escolha do alimento. Trocar a ração de manutenção por uma versão light e aplicar uma fórmula de restrição calórica não é tratamento. Quando se restringe energia, restringem-se também outros nutrientes. Um trabalho publicado pelo grupo do convidado, por volta de 2020 ou 2021, avaliou alimentos coadjuvantes hipocalóricos no Brasil e observou que, em algumas formulações, já em uma segunda ou terceira restrição calórica surgiam deficiências de nutrientes.
Daí a divisão proposta: o alimento coadjuvante para obesidade serve à fase de tratamento, com perfil técnico para suportar restrições; o alimento light serve à manutenção do paciente que já perdeu peso. A restrição calórica também não deve se estender indefinidamente, e a nutrição clínica precisa avaliar a necessidade de suplementação, por exemplo de aminoácidos. Em pacientes com escore 6 de 9, apenas readequar o manejo nutricional, sem restrição agressiva, pode ser suficiente para levá-los a 5 de 9.
Quando o pet não perde peso: investigar o manejo antes da doença de base
O Dr. Rodrigo relata receber com frequência pacientes encaminhados com suspeita de hipotireoidismo porque "não perdem peso" usando alimento coadjuvante. Na investigação, é comum encontrar ausência de cálculo de necessidade energética de perda de peso, falta de monitoramento da taxa de perda semanal e calorias extras não contabilizadas. Dar petiscos por fora, lembra ele, é como jogar o dinheiro do alimento coadjuvante no lixo, porque o tratamento se prolonga.
A Dra. Luciana complementa: tudo o que o animal come em 24 horas tem calorias, e o regime só funciona se todas as pessoas que convivem com ele fizerem o regime. Se dez pessoas convivem com o animal e uma faz errado, ela sabota o esforço das outras nove. O convidado também reforça a necessidade de uma dieta que caiba na rotina da família e lembra que o tratamento não dura 30 dias: pode levar meses. Como a obesidade é crônica, mesmo pacientes que emagreceram por seis meses mantêm alterações metabólicas, como resistência à leptina, quando comparados a controles em escore ideal, o que justifica o acompanhamento contínuo.
Análogos de GLP-1: o que a evidência mostra até agora
O episódio fecha com o tema do momento: as "canetinhas". Os análogos de GLP-1 regulam fome, saciedade, esvaziamento gástrico e metabolismo da glicose. Na medicina veterinária, estudos surgem a partir de 2016. Em gatos obesos, um estudo com análogo de GLP-1 mostrou perda de peso, mas sem diferença estatisticamente significativa em relação ao grupo placebo, que recebeu dieta. Um estudo mais recente em cães apresentou o mesmo padrão.
Para o convidado, ainda faltam ensaios clínicos com delineamento homogêneo e doses definidas para cada espécie, além de respostas sobre a readaptação neuroendócrina após uma perda de peso mais rápida. A Dra. Luciana acrescenta que, diferentemente dos humanos, cães e gatos dependem de um intermediário para comer, e que talvez apenas 1% dos pacientes obesos, com apetite realmente voraz, se beneficiem da medicação. Os outros 99% precisam de uma dieta bem feita e da conscientização dos tutores.
O que muda na prática
Prescrever em vez de indicar, registrar a avaliação nutricional, diagnosticar pelo escore de condição corporal, calcular a necessidade energética de perda de peso, monitorar a taxa de perda semanal, contabilizar todas as calorias e trazer toda a família para o tratamento. É uma medicina baseada em ciência, não em achismos, e que vai além de seguir tendências.
Quer aprofundar cada um desses pontos? Ouça o episódio completo do Pet Food Podcast com a Dra. Luciana e o Dr. Rodrigo Olivindo. 🐶🐱🎙️ Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.
