Nutrição de Filhotes: Os Primeiros Meses que Decidem a Saúde de Cães e Gatos pra Vida Toda
23 de julho de 2026
Doutoranda em nutrição de gatos explica por que o período entre o nascimento e a fase adulta é o momento de maior risco — e de maior oportunidade — na vida de cães e gatos

Um número separa a vida da morte nas primeiras semanas de um filhote: 44% de mortalidade para quem não recebe colostro, contra 4,9% para quem recebe. Monique Paludetti, doutoranda em Clínica Veterinária com ênfase em Nutrição de Gatos pela UFMG e USP-SP, retorna ao Pet Food Podcast para detalhar por que esse período — do nascimento até a maturidade estrutural do animal — exige um nível de precisão nutricional que vai muito além de "seguir o rótulo da ração".
Colostro: a imunidade que não vem de outro jeito
Diferente dos humanos, que recebem imunidade via cordão umbilical durante a gestação, cães e gatos têm placenta endotelial e adquirem apenas entre 5% e 10% de imunidade passiva antes de nascer. Praticamente toda a proteção imunológica do filhote vem do colostro — o primeiro leite, riquíssimo em imunoglobulinas — ingerido nas primeiras horas de vida, quando o intestino do filhote ainda tem permeabilidade e receptores específicos para absorver essas moléculas diretamente na corrente sanguínea. A diferença de mortalidade entre filhotes que recebem e não recebem esse colostro é a prova mais direta de que essa janela não se repete.
Neonatos órfãos: o que fazer nas primeiras 24 horas
Não existe substituto comercial equivalente ao colostro — apenas sucedâneos para o leite materno comum. Para filhotes órfãos, a especialista descreve uma janela de manejo bem definida: dentro das primeiras 24 horas de vida, é possível colher plasma de adultos saudáveis e imunizados e administrá-lo por via oral, funcionando como uma transferência de imunidade emprestada. Depois de 24 horas — ou já entre 12 e 16 horas, quando a permeabilidade intestinal começa a se fechar — essa mesma transferência de plasma precisa ser feita por via subcutânea, porque a via oral deixa de ser eficaz. Passado esse primeiro dia crítico, o ideal é uma cadela ou gata lactante adotando o filhote; na ausência dela, entram os sucedâneos comerciais, com atenção rigorosa à diluição correta e à posição de amamentação — sempre com a cabeça inclinada para cima, nunca de barriga para cima.
A alimentação da mãe gestante já molda a microbiota do filhote
Um dos pontos mais relevantes do episódio é o impacto da suplementação da fêmea gestante na microbiota do filhote. Monique Paludetti cita um estudo em que filhotes amamentados por mães suplementadas com prebióticos (como FOS) enfrentaram o desmame com significativamente menos diarreia e menos intercorrências clínicas do que os demais. Como a microbiota se forma nos primeiros meses e depois se torna resiliente — ou seja, tende a voltar ao padrão original mesmo após intervenções dietéticas pontuais —, qualquer deficiência estabelecida nessa fase inicial tende a acompanhar o animal peluda vida inteira, inclusive aumentando a predisposição a alergias.
Crescimento sob controle: a curva que evita excessos
Para monitorar se a alimentação prescrita está adequada, a especialista utiliza curvas de crescimento específicas por sexo e por peso estimado na fase adulta (disponíveis para animais até 45 kg). O acompanhamento é diário em neonatos e passa a ser quinzenal ou mensal após o desmame — nunca espaçado além disso. Segundo Monique Paludetti, tanto o salto abrupto de curva quanto a estabilização inesperada do peso são sinais de alerta que exigem ajuste imediato na quantidade calórica ofertada.
O risco real do excesso — não só da falta
Um ponto central do episódio é que o erro nutricional em filhotes tem duas direções, e o excesso é tão perigoso quanto a carência. Energia e cálcio fornecidos além da necessidade aceleram o crescimento ósseo mais rápido do que a cartilagem de crescimento consegue acompanhar, gerando osteopatias e, em casos mais graves, displasias que exigem cirurgia — um risco especialmente alto em cães de porte grande e gigante, cuja regulação de cálcio e fósforo só amadurece por volta dos seis meses de idade. Um cachorro "grande e imponente" alimentado com excesso de energia também cria mais células adiposas ainda filhote, o que aumenta permanentemente sua predisposição à obesidade na fase adulta.
Dieta caseira: quando funciona e quando é risco real
Questionada sobre dietas caseiras para filhotes, Monique Paludetti é direta: podem ser válidas, desde que sustentadas por três pilares — formulação adequada (não fórmulas genéricas encontradas na internet), execução correta pela pessoa que prepara o alimento, e boa aceitação por parte do animal. Uma falha em qualquer um desses pontos, somada à alta demanda nutricional do filhote, compromete o crescimento. Por isso, ela reforça que dieta caseira em filhote exige acompanhamento mensal sem exceções — o risco de erro é alto demais para revisões espaçadas.
A janela de neofobia dos gatos
Fechando o tema, a especialista chama atenção para a neofobia alimentar dos gatos: o contato com diferentes sabores e texturas durante a fase de filhote determina a aceitação alimentar na vida adulta. Gatos que só tiveram contato com um tipo de alimento tendem a rejeitar qualquer mudança futura — um problema real quando uma alteração dietética se torna necessária por questão clínica. Oferecer variedade controlada de sabores e texturas ainda filhote, segundo ela, é uma estratégia de manejo que facilita (e muito) a vida do tutor e do clínico no futuro.
O que isso muda na rotina de quem orienta tutores
A mensagem final do episódio resume o desafio da nutrição de filhotes: fornecer o essencial, sem excesso e sem carência, respeitando a curva de crescimento individual de cada animal — e não apenas uma fórmula genérica de rótulo. Para o profissional que atende gestação, parto e primeiros meses de vida, os primeiros meses do filhote não são apenas mais uma fase da consulta: são o período que define a saúde e a longevidade do animal para o resto da vida.
Quer entender como aplicar esses critérios de manejo nutricional de filhotes na sua rotina clínica? Ouça o episódio completo do Pet Food Podcast com a Dra. Stephanie Teodoro e Monique Paludetti. 🎙️🐾 Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.
