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    Nutrição do paciente internado: por que o suporte nutricional deixou de ser acessório e virou terapia de primeira linha em cães e gatos

    30 de julho de 2026

    O jejum nunca deu descanso glandular — e o paciente obeso também pode estar desnutrido

    Nutrição do paciente internado: por que o suporte nutricional deixou de ser acessório e virou terapia de primeira linha em cães e gatos

    Existe um ponto cego na rotina hospitalar veterinária que quase nenhum protocolo de internação cobre com o mesmo rigor da fluidoterapia: o aporte nutricional. O paciente entra em catabolismo por efeito direto da inflamação, reduz a ingestão por hiporexia associada à doença e começa a consumir massa magra dentro do próprio hospital — enquanto a prancheta de prescrição segue concentrada em fluido, analgesia e antimicrobiano. A pergunta que o episódio do Pet Food Podcast com a médica-veterinária Me. Raquel Valim coloca é incômoda: nós, médicos veterinários, estamos dando à nutrição a importância que ela merece?

    Catabolismo, inflamação e a perda de massa magra dentro da internação

    A doença provoca catabolismo por si só. A inflamação promove proteólise e, somada à redução espontânea do apetite, cria uma janela em que o paciente perde massa muscular exatamente no período em que mais precisa dela para se recuperar. Se não há intervenção nutricional, esse catabolismo não se estabiliza — ele se aprofunda. A manutenção da massa magra não é uma preocupação estética nem de longo prazo: ela determina velocidade de recuperação, resposta ao tratamento e qualidade da convalescença pós-alta.
    É por isso que a nutrição não pode ser tratada como uma etapa do plano terapêutico. Ela é uma das terapias. Assim como a fluidoterapia é necessária, o aporte nutricional é necessaríssimo — e precisa entrar junto com a medicação, diariamente, dentro da rotina de internação.

    Magro não é desnutrido: por que o escore corporal engana

    Um dos pontos mais didáticos do episódio desfaz uma confusão frequente na clínica: existe paciente magro que não está desnutrido, paciente magro desnutrido e — o que costuma passar despercebido — paciente obeso desnutrido. Desnutrição é ausência de nutrientes, não ausência de calorias. O animal que chega com deficiência de aminoácidos, vitaminas e minerais, muitas vezes alimentado com dieta não convencional desbalanceada, está desnutrido independentemente de estar acima do peso. Já o paciente magro pode estar apenas em restrição calórica, sem restrição de nutrientes.
    A consequência prática é direta: o escore de condição corporal, isoladamente, não classifica risco nutricional. É preciso investigar o que há por trás dele — qual alimento, qual quantidade, há quanto tempo.

    Quantos dias sem comer? O limite de três dias no gato e a armadilha da hiporexia

    Na anamnese do paciente internado, a pergunta sobre quantos dias o animal está em casa sem se alimentar é obrigatória. Para gatos, o teto é de três dias, e o risco é maior no felino obeso pela probabilidade de lipidose hepática. O cão tem alguma resistência a mais, mas o raciocínio é o mesmo.
    O erro mais comum, porém, é parar nessa pergunta. O paciente que está há apenas 24 horas em anorexia total, mas vinha reduzindo a ingestão calórica há um mês, é um paciente grave. Animais raramente param de comer da noite para o dia: primeiro sobra alimento no pote, depois o tutor recorre a água morna, arroz, carne, e o apetite artificialmente estimulado mascara a progressão da doença. O que mudou no manejo alimentar antes da anorexia importa tanto quanto o número de dias em jejum.

    Pancreatite: o fim do dogma do jejum

    Durante anos, ensinou-se que o paciente com pancreatite deveria permanecer em jejum para promover descanso glandular. Esse racional não se sustenta. O jejum não gera descanso glandular; gera lesão intestinal. Sem substrato no lúmen, o enterócito perde viabilidade, a barreira física se rompe e aumenta a permeabilidade a bactérias — a translocação bacteriana, que nos casos graves evolui para sepse.
    A conduta atual é a introdução precoce de alimentação adequada, com baixo teor de gordura no cão, em porções pequenas e fracionadas. O mesmo princípio se aplica ao pós-operatório: mesmo em cirurgias do trato digestório, o padrão é de 8 a 12 horas de jejum, com reintrodução de alimento líquido em pequenas porções conforme a porção do intestino envolvida, justamente para estimular e nutrir as células intestinais e reequilibrar a microbiota.

    Enteral sempre que possível: sonda esofágica, sonda gástrica e o lugar da parenteral

    A indicação de sonda não depende do tempo de espera do clínico, e sim de um critério objetivo: o paciente não está se alimentando por vontade própria. Se palatabilizante e manejo alimentar não resolvem — e sobretudo se o animal já chega de casa com redução de apetite —, a sonda deve ser considerada o quanto antes. A lógica se inverte em relação ao que a intuição sugere: não se espera o paciente melhorar para que volte a comer; faz-se com que ele coma para que melhore.
    A via enteral é preferencial porque nutre o enterócito e sustenta o microbioma. A sonda esofágica é a escolha padrão para pacientes que precisarão de suporte por período mais longo com trato esofágico íntegro — oncológicos, nefropatas, pós-cirúrgicos de maior porte, pacientes com fenda palatina. A sonda gástrica ganha preferência quando há alteração esofágica: megaesôfago, estenose ou comprometimento de cárdia. A nutrição parenteral fica reservada a situações específicas, como o paciente comatoso ou cirurgias graves do trato digestório que inviabilizem a via enteral — e, mesmo nesses casos, é comum associar estímulo enteral com porções muito pequenas e refeições fracionadas.

    Síndrome de realimentação: estabilizar antes de alimentar

    O paciente que chega após vários dias sem se alimentar exige uma sequência rígida. A síndrome de realimentação cursa com queda de potássio, de fósforo e de tiamina (vitamina B1), e o ímpeto de alimentar rápido é justamente o que a desencadeia. A ordem é: dosar, corrigir volemia, hidratar, repor eletrólitos — e só então introduzir alimento.
    A reintrodução é escalonada. Calcula-se a necessidade energética de repouso e inicia-se com 25% desse valor, podendo cair para 10% em quadros mais críticos. No segundo dia, se a evolução for favorável, sobe-se para 50%, com incrementos sucessivos de 25%. Nada disso é receita fixa: o acompanhamento diário é o que define o ritmo do avanço.

    NER sem fatores de doença: o risco de superalimentar o paciente crítico

    Um dos pontos de maior atualização de conduta do episódio diz respeito ao cálculo energético. A literatura mais antiga sugeria multiplicar a NER — 70 x peso corporal elevado a 0,75 — por fatores de doença de 1,2, 1,4 ou até 2. Os consensos hospitalares mais recentes, incluindo o material publicado entre 2021 e 2022 e apoiado também em evidência da nutrição humana, apontam na direção oposta: não aplicar fatores. Mesmo em catabolismo, o paciente crítico corre risco de superalimentação, e a sobrecarga metabólica pode agravar o quadro em vez de acelerar a recuperação.

    Microbioma, imunidade e os indicadores que realmente sinalizam sucesso

    O equilíbrio da microbiota intestinal sustenta o desenvolvimento das células do sistema imune. Uma dieta completa e balanceada, com prebióticos, alimenta as bactérias benéficas e favorece a eliminação de patogênicas pelas fezes — impactando diretamente a defesa do paciente durante a internação e após a alta.
    Do lado do monitoramento, a nutrição clínica dispõe de poucos marcadores laboratoriais. A albumina se reduz na desnutrição, mas tem meia-vida longa: demora a cair e demora a subir, o que a torna pouco útil como indicador de resposta em tempo real. O peso, por sua vez, responde muito mais à reidratação do que ao aporte nutricional. Os sinais que efetivamente indicam que o suporte está funcionando são clínicos: disposição, ânimo, retorno da aceitação alimentar e velocidade de recuperação. Na direção inversa, o surgimento de diarreia sem outro fator explicativo é o sinal mais confiável de que a dieta escolhida não está adequada.

    O que isso muda na sua rotina de internação

    Três mudanças práticas se impõem. A primeira é protocolar o questionamento nutricional na anamnese: qual alimento, qual quantidade, há quanto tempo houve alteração de ingestão. A segunda é antecipar a indicação de sonda, tratando-a como conduta de suporte e não como último recurso. A terceira é abandonar o fator de doença no cálculo energético e escalonar a realimentação a partir de 25% da NER.
    A recomendação da WSAVA vai na mesma direção: pacientes com doença crônica — renal, diabético, oncológico, hepatopata, e mesmo o paciente com doença periodontal — já têm indicação formal de avaliação nutricional. E o retorno é mensurável: estudos apontam redução de quase dois dias no tempo de internação em pacientes que recebem aporte nutricional adequado. A nutrição não pode ser ignorada e não pode ser menosprezada.

    Ouça o episódio completo com Me. Raquel Valim e Kellen Oliveira e aprofunde a nutrição do paciente internado e crítico. Ciência, não achismo. 🐶🐱🎙️
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