Postura comercial no Nordeste: como produzir ovos sem água, sem milho e sem soja e continuar competitivo
8 de outubro de 2026
Grão próprio, automação, biosseguridade e exportação explicam por que Pernambuco cresce quase o dobro da média nacional, e o que ameaça essa expansão

Durante décadas, o Nordeste foi tratado como destino da produção avícola do Sul e do Sudeste. Esse retrato ficou para trás. Em 2025, a região cresceu 6,75% na produção de ovos, acima da média nacional, e já responde por 18,3% dos ovos brasileiros. Pernambuco foi além: avançou 10,2%, enquanto o Brasil cresceu 5,7%. O dado contraria a lógica clássica de localização da avicultura de postura, historicamente ancorada na proximidade do grão.
No primeiro episódio da série gravada na 10ª Feira da Avicultura e Suinocultura do Nordeste, em Caruaru, o médico-veterinário e avicultor Josimário Florêncio detalha como essa expansão foi construída e por que crescer em volume deixou de ser o principal desafio. A questão agora é crescer sem perder margem, sanidade e longevidade das poedeiras.
Produzir onde não há grão nem água
O agreste pernambucano, faixa de 28 municípios entre a Zona da Mata e o Sertão, concentra o maior volume de produção do estado e reúne três restrições estruturais: não produz milho, não produz soja e, em parte do território, não dispõe de água suficiente. Há granjas de grande porte, uma delas com 4 milhões de aves, abastecidas por carro-pipa. Em 2010, professores da Texas A&M University que visitaram a região reagiram com espanto diante da fila de caminhões-pipa na estrada para São Bento do Una.
O que compensa essas limitações é o clima. Segundo Josimário, a amplitude térmica diária da região não passa de 10 °C, com dias de 30 °C e madrugadas de 20 °C. Essa condição reduz o desafio térmico e ajuda a explicar por que Pernambuco sustenta, há décadas, alguns dos melhores resultados técnicos do país, tanto em frango de corte quanto em poedeiras.
A nova geografia do grão nordestino
Até o início da década, o milho chegava de Mato Grosso e Goiás, apoiado em programas de subsídio de frete que, na avaliação do convidado, protegiam mais o produtor de grãos do Centro-Oeste do que o avicultor nordestino. Quando o mercado externo se abriu, em 2020, o milho chegou a R$ 100 a saca e a soja a R$ 200. A resposta veio das novas fronteiras: o Nordeste, que praticamente não produzia grão, passou de 6 milhões para mais de 10 milhões de toneladas.
Hoje, segundo Josimário, 100% do grão consumido pela avicultura nordestina vem do próprio Nordeste. O frete a partir do Centro-Oeste tornou-se proibitivo, e o MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a cerca de 1.500 km, virou o principal fornecedor. O SEALBA, que reúne áreas de Sergipe, Alagoas e Bahia a cerca de 200 km, colhe 1,5 milhão de toneladas de milho e tem papel estratégico entre outubro e dezembro, na entressafra, quando segura a escalada de preço.
Uma terceira frente surge na Chapada do Araripe, em Pernambuco: mil metros de altitude, cerca de 1.200 mm de chuva por ano e 20 mil hectares em preparação, após a aprovação do plano de manejo da área de preservação. Em área de primeiro ano, um produtor vindo do Paraná colheu 74 sacas por hectare, quando esperava entre 40 e 45. Outro traço regional relevante, lembrado pelo co-host Nilton Borges, é o uso de sorgo e milheto na nutrição animal, o mais intenso do país.
Custo de ração: volatilidade mesmo com estoque recorde
A autonomia regional não eliminou a volatilidade. Em pouco mais de 15 dias, o milho passou de R$ 70 para R$ 90 no Nordeste e o farelo de soja de R$ 1.800 para R$ 2.700, sem variação proporcional em São Paulo. O movimento ocorre num momento em que o Brasil carrega um estoque de passagem de cerca de 15 milhões de toneladas, o maior da história, o que indica componente especulativo. Para conter a alta, o setor formalizou a importação de três navios de milho argentino, um deles para novembro.
A soja preocupa mais. Sem alternativa de importação, o alívio só deve vir em fevereiro, e o impacto no custo de produção já chega a cerca de 30%, justamente quando o preço do ovo está em queda. No médio prazo, entram em cena as usinas de etanol de milho. Duas já operam, em Balsas (MA) e Luís Eduardo Magalhães (BA), e outras três estão em construção, no Piauí, em Sergipe e na Bahia. Uma única planta começa retirando 1 milhão de toneladas do mercado e atrela o preço do milho à Bolsa de Chicago. Em contrapartida, gera DDGS, coproduto de valor nutricional interessante que, por ora, ainda chega caro e é absorvido pelo confinamento bovino, mas tende a virar matéria-prima alternativa à medida que as usinas se aproximam.
Biosseguridade em regiões de alta densidade
O caso de influenza aviária no Rio Grande do Sul, encerrado em 28 dias, mostrou a capacidade de resposta do serviço oficial. O cenário pernambucano, porém, exige atenção redobrada. A região de São Bento do Una concentra cerca de 25 milhões de aves alojadas em poucos municípios, com frango de corte, matrizes e poedeiras lado a lado, e uma parcela de pequenos produtores ainda fora do cadastro oficial. Somam-se pontos de parada de aves migratórias no litoral.
Na granja de Josimário, a resposta é estrutural. Os núcleos ficam no centro de uma área de 1.200 hectares, cercados por mata. Veículos não entram, o descarte de aves é feito a 5 ou 6 km, e todo o esterco vira composto orgânico para as lavouras próprias, o que elimina o trânsito de compradores. Fornecedores essenciais cumprem vazio sanitário, banho e troca de roupa a cada núcleo, num modelo comparável ao de matrizes pesadas. A lógica é patrimonial: a galinha é o maior ativo do produtor.
Demanda, preço e o caminho da exportação
Do lado do consumo, o convidado cita um acompanhamento de 50 anos em que a curva de consumo de ovo se sobrepõe à do PIB. Ovo não é comida de crise: cresce quando a renda cresce. Com a renda pressionada, o setor viveu um apagão de consumo em dezembro, com bandeja vendida a R$ 5 diante de um custo de R$ 12.
A saída passa por novos canais. A exportação começou em maio, com 10 contêineres até setembro para Mauritânia e Serra Leoa, numa rota de 50 dias que só é viável porque o ovo resfriado mantém qualidade por 90 dias. O limite é que esses mercados consomem ovo vermelho, apenas 20% da produção nacional. O segundo canal seria uma indústria regional de ovoprodutos, como ovo pasteurizado e em pó, que depende de garantia de fornecimento por parte dos produtores.
O que fazer agora para seguir competitivo em cinco anos
Josimário resume três frentes. A primeira é a automação, que muda o perfil da mão de obra: o trabalhador que retirava esterco com pá e carroça dá lugar ao profissional que entende motorredutor, velocidade de esteira e amperagem. Em sua granja de codornas, 300 mil aves são operadas por quatro pessoas.
A segunda é a qualificação contínua. Na empresa, os líderes passam por um programa interno de formação e melhoria contínua, porque, como ele lembra citando o professor Paulo Lourenço, a granja não precisa de gênios, precisa do básico bem feito. A terceira é produzir o próprio grão. A empresa já cobre 50% do consumo com lavoura própria e projeta autossuficiência até 2028.
Há ainda um fator transversal. Tecnologia não substitui gestão presente: a lista dos melhores e piores produtores de uma integradora costuma mostrar super aviários no fim do ranking quando o investimento não vem acompanhado de presença do dono e de equipe preparada.
Muito além de produzir mais
A expansão nordestina prova que a avicultura de postura pode prosperar longe do grão, mas a próxima fase será decidida por margem, sanidade e gestão. Para técnicos, nutricionistas e gestores de granja, entender a geografia do grão, a biosseguridade em regiões de alta densidade e a automação deixou de ser diferencial e virou condição para continuar no jogo.
Ouça a conversa completa entre Josimário Florêncio, o host Wellinton Molinetti e o co-host Nilton Borges no O Aviário Podcast. 🎙️🐔
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