Reprodução Avícola: Por Que o Macho é o Elo Mais Negligenciado da Fertilidade do Lote
22 de julho de 2026
Médica veterinária especialista em reprodução explica por que 50% da genética do lote depende de um elemento que a avicultura ainda trata como coadjuvante

Pergunte a qualquer técnico de campo qual animal decide a fertilidade do plantel e a resposta natural vai apontar para a fêmea. É nela que a atenção se concentra: sistema reprodutivo, postura, qualidade da casca. A Dra. Kelry Mayara Silva, médica veterinária com doutorado em reprodução animal pela UNESP Botucatu, propõe uma correção de rota: os machos representam 50% do material genético das aves futuras, e a proporção de manejo é desigual — um macho reprodutor, na prática, responde por dez fêmeas. Se uma fêmea for infértil, a perda é pontual. Se o macho for, a fertilidade de toda a cota que ele cobre desmorona junto.
As três fases que definem um bom reprodutor
Segundo a especialista, o macho percorre um ciclo bem definido antes de estar apto à reprodução. Na fase de cria, entre o nascimento e cerca de 13 a 15 semanas, o foco é o desenvolvimento da estrutura corporal — esqueleto e massa muscular que sustentarão o animal adulto. Entre 19 e 28 semanas, ele entra na fase de maturação sexual, a puberdade da ave, quando as características de macho começam a se expressar, inclusive as comportamentais. Só a partir de 30 semanas o reprodutor atinge a fase adulta plena, com produção espermática estabelecida e fertilidade em pico. É um processo de meses que exige acompanhamento constante — e não apenas na reta final.
Os três pilares do manejo de machos reprodutores
A Dra. Kelry Mayara Silva resume o sucesso reprodutivo em três frentes interligadas: manejo, comportamento e fatores climáticos.
No manejo, o ambiente de criação — temperatura, umidade, ventilação — segue as mesmas exigências do sistema produtivo geral, mas a alimentação exige atenção redobrada: um macho reprodutor não pode atingir score corporal elevado (próximo de 4 em uma escala de 1 a 5). O excesso de peso e de gordura compromete diretamente a aptidão reprodutiva, então o objetivo é manter o animal em peso médio, nunca no padrão de acabamento usado para produção de carne. A rotina de quem cuida do plantel também entra na equação, principalmente quando o destino do macho é a colheita de sêmen para inseminação artificial: esses animais passam por um processo de condicionamento específico que vai além do manejo padrão de granja.
No comportamento, a atenção recai sobre a dominância e a agressividade, características que começam a aparecer por volta das 18 semanas, quando o macho entra na fase de juventude. Como a proporção de acasalamento costuma ser de um macho para dez fêmeas, um reprodutor agressivo demais gera prejuízo desproporcional ao ser introduzido no lote.
Os fatores climáticos fecham o tripé. A luminosidade tem papel direto na manutenção do período reprodutivo e na produção espermática. Mas o dado menos intuitivo é outro: mesmo em galpões com ambiente controlado, variações climáticas externas — mudança brusca de temperatura, dias de chuva — seguem influenciando a resposta do macho, efeito que se mostra ainda mais evidente na colheita manual de sêmen do que na monta natural.
Macho agressivo não é sinônimo de descarte
Um dos pontos mais práticos do episódio é o critério de seleção comportamental. Um macho identificado como agressivo ou excessivamente dominante não precisa ser descartado — ele só não deve ir para monta natural dentro do galpão com fêmeas. Segundo a Dra. Kelry Mayara Silva, esse mesmo animal pode ser direcionado exclusivamente para colheita de sêmen e reprodução via inseminação artificial, funções que não exigem contato direto com o plantel. Na experiência da especialista, machos removidos da monta natural por agressividade seguiram entregando excelente característica espermática como reprodutores de coleta — ou seja, o comportamento problemático não invalida o potencial genético do animal, apenas redireciona seu uso dentro do sistema.
Quando descartar um macho pela idade
Não existe um número fixo de semanas que determine a troca de um reprodutor. O critério real, reforça a especialista, é a resposta em fertilidade: ovos férteis, prole uniforme e com bom desenvolvimento indicam que o macho pode continuar em atividade, independentemente da idade cronológica. Quando esses indicadores caem — ou, no caso de machos usados para inseminação artificial, quando concentração e volume espermático diminuem — a substituição é indicada. Há machos que perdem essa condição pouco tempo depois de atingir a maturidade sexual, o que reforça a necessidade de monitoria individual e não apenas por lote de idade.
A aceitação também é um fator comportamental — das duas partes
Um detalhe frequentemente ignorado: a fêmea também participa do processo de aceitação do macho. Mesmo um reprodutor fisiologicamente apto pode não ser aceito pelo grupo de fêmeas ao qual foi destinado, o que reforça que reprodução não é uma equação puramente física — o comportamento de ambos os lados do acasalamento interfere no resultado final da fertilidade.
O gargalo que a ciência ainda não resolveu
Fechando o tema, a Dra. Kelry Mayara Silva chama atenção para um desafio pouco discutido fora da pesquisa: ao contrário do que já é rotina em mamíferos, a criopreservação de sêmen aviário — refrigeração e congelamento para uso futuro — ainda enfrenta dificuldades técnicas significativas. Avançar nessa fronteira científica depende diretamente de entender melhor o macho desde o primeiro dia de vida, não apenas no momento da colheita do material genético.
O que isso muda na rotina de quem cuida do plantel
Para o técnico de campo, extensionista ou sanitarista, a mensagem central do episódio é direta: o macho reprodutor precisa do mesmo padrão de acompanhamento técnico já consolidado para a fêmea — manejo alimentar específico, monitoria comportamental desde a juventude, atenção aos fatores climáticos externos e critério de descarte baseado em fertilidade real, não em idade cronológica. Ignorar essa metade da equação reprodutiva significa aceitar um risco silencioso, mas proporcionalmente muito maior, dentro do plantel.
Quer entender como aplicar esses critérios de manejo, seleção e descarte de machos na sua granja? Ouça o episódio completo do Aviário Podcast com o Dr. Marcos Café e a Dra. Kelry Mayara Silva. 🎙️🐔
Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.
