Salmonela na Avicultura: Por Que a Biosseguridade Sozinha Não Resolve o Problema
15 de julho de 2026
Professor da UFMG explica por que cama úmida, composteira e ácaros seguem reintroduzindo o patógeno mesmo em granjas com protocolo implantado

O extensionista que chega à granja recém-formado costuma acreditar que biosseguridade é sinônimo de pedilúvio na entrada e troca de roupa. O professor Oliveiro Caetano de Freitas Neto, da UFMG, que pesquisa salmoneloses aviárias há mais de 15 anos, desmonta essa simplificação logo de cara: existem mais de 2.600 sorotipos de Salmonella na natureza, e entre 80 e 90 deles já circulam na avicultura brasileira, com potencial de causar infecção alimentar em humanos. Não é uma bactéria — é uma família inteira de riscos, cada um com sua própria porta de entrada.
A diferença entre tifo aviário e paratifo
As salmonelas adaptadas à ave — que causam tifo aviário e pulorose — já estão relativamente bem controladas nas casas de genética, segundo o professor. O problema real está nas salmonelas paratíficas, não adaptadas à espécie, que costumam chegar via transmissão vertical, já com o pintinho, ou circulam pelo ambiente da granja através de animais silvestres, pessoas e resíduos. Como o ciclo de recirculação é constante — pragas, roedores, moscas — o controle exige monitoria contínua, não uma ação pontual.
Mapeamento de rotas: a ferramenta que substitui o achismo
Freitas Neto defende que todo estabelecimento precisa mapear as possíveis rotas de entrada do patógeno — matriz, fábrica de ração, entorno da granja, colaboradores — e, a partir disso, implantar monitorias que confirmem se essas portas realmente estão fechadas. Só com essa rastreabilidade é possível direcionar uma intervenção pontual no elo mais frágil do sistema, em vez de reforçar biosseguridade genérica em pontos que já estão sob controle.
O que fazer quando o lote já positivou
Para lotes positivos, a reutilização de cama está descartada — mesmo que o destino seja a venda para o vizinho ou o uso agrícola. O protocolo recomendado inclui tratamento rigoroso da cama, limpeza e desinfecção completa do aviário e equipamentos, e um vazio sanitário de pelo menos 21 dias após a desinfecção. Como a Salmonella não sobrevive bem em ambiente seco, manter o galpão seco por esse período é o que efetivamente quebra o ciclo de transmissão — junto do controle de vetores mecânicos, como equipamentos compartilhados entre lotes, e de pragas como o cascudinho.
Composteira e ácaros: os pontos cegos da postura comercial
Na postura comercial, sem cama, o risco se desloca para outros pontos do sistema. A composteira mal manejada é citada como um dos principais focos: se houver vazamento de chorume ou proliferação de moscas, o colaborador que circula por essa área contaminada pode levar a bactéria de volta ao aviário na própria bota. Ácaros também são vetores relevantes, principalmente na transmissão da Salmonella Gallinarum, responsável pelo tifo aviário — e o esterco não removido com frequência vira criadouro de moscas, que atuam de forma eficiente na disseminação do patógeno entre lotes.
O que diz o RISPOA sobre lotes positivos
Um dado pouco conhecido no campo: o Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RISPOA), no artigo citado pelo professor, estabelece que lotes com doença zoonótica comprovada não podem comercializar ovos. Na prática, quando o problema sanitário é confirmado pelo serviço oficial, a comercialização desses ovos já não deveria ocorrer — mesmo sem uma normativa específica de controle de Salmonella para ovos, como existe para frango de corte em abatedouro.
Dois anos sem antibiótico: o que muda na gestão da granja
Freitas Neto acompanha granjas de médio e grande porte que já operam há dois anos sem uso de antibiótico na fase de postura — o insumo ainda é usado eventualmente na recria, mas não na produção. O resultado não vem de uma única medida, e sim da combinação entre práticas preventivas, conforto animal e blindagem do lote contra desafios sanitários. É trabalho de gestão diária: envolve treinar equipe, reforçar troca de roupa e banho, e restringir animais domésticos dentro da propriedade. O ganho, segundo ele, vai além do resultado zootécnico: é vender um produto efetivamente livre de resíduo e de risco microbiológico ao consumidor — que muitas vezes acredita estar comprando só valor nutricional, sem saber que também pode estar exposto a Salmonella ou resíduo de antibiótico.
O que isso muda na rotina do extensionista
Para quem está no campo, a mensagem central do episódio é prática: biosseguridade eficaz não é protocolo genérico, é rastreabilidade aplicada a cada rota de entrada específica da propriedade. Isso significa monitorar composteira, controlar vetores mecânicos, respeitar o vazio sanitário de 21 dias e entender que o antibiótico não é solução para Salmonella — é a lacuna de manejo que precisa ser fechada antes.
Quer entender como aplicar esse mapeamento de rotas na sua granja e o que mudar primeiro? Ouça o episódio completo de O Aviário com Gabriela Bittencourt e o professor Oliveiro Caetano de Freitas Neto. 🎙️🐔 Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.
