Avicultura

    Silício bioativo e matriz extracelular: por que a próxima fronteira da nutrição óssea avícola não é mais mineral

    29 de outubro de 2026

    Absorção acima de 90%, até 45% menos ovos trincados e ROI de 13 vezes em matrizes: os dados que André Pratto trouxe ao O Aviário

    Silício bioativo e matriz extracelular: por que a próxima fronteira da nutrição óssea avícola não é mais mineral

    Nos últimos 15 a 20 anos, a avicultura construiu uma das cadeias mais eficientes da produção animal. Empresas de genética aceleraram o potencial produtivo, e o campo, o manejo e a nutrição correram para acompanhar. Quando o assunto é osso, tendão e ligamento, porém, a estratégia foi praticamente uma só: entregar mineral. O problema é que essa estratégia chegou ao teto. Para André Pratto, médico-veterinário e responsável pela entrada do silício bioativo no Brasil pela Vetpharm, a quantidade de mineral que a indústria coloca hoje dentro da ave já passou de 100% da exigência. A pergunta que falta responder é outra: para onde vai esse mineral depois de absorvido?

    Duas décadas aperfeiçoando a entrega de mineral

    A base da pirâmide foi a sanidade intestinal. Coccidiostáticos, probióticos, simbióticos, óleos essenciais e ácidos orgânicos garantiram que aquilo que a ave come seja de fato absorvido. Depois vieram os ajustes de matriz nutricional: padrão e granulometria do calcário, que em poedeiras precisa ser distinta para distribuir a absorção de cálcio ao longo do dia, fontes de fosfato, fitase e vitamina D para melhorar absorção e circulação do cálcio. André faz questão de reconhecer o mérito desse trabalho. Mas o excesso já cobra a conta: doses altas de fosfato e calcário alteram o pH intestinal e desequilibram a microbiota. Mais mineral, portanto, deixou de ser sinônimo de mais osso.

    Os 35% do osso que ninguém trabalhava

    Histologicamente, o osso é cerca de 65% matriz inorgânica, ou seja, mineral, e 35% matriz orgânica. Essa fração orgânica é a matriz extracelular, composta quase 100% por colágeno tipo 1, que confere leve flexibilidade ao tecido e é o local onde a hidroxiapatita é formada e depositada. Sem uma matriz bem construída, o mineral circulante não tem onde se fixar com eficiência.

    André usa uma analogia de obra. Numa coluna de prédio, cimento e tijolo são os minerais. O vergalhão de aço, que dá forma e estrutura, é o tecido conjuntivo, a matriz extracelular de colágeno tipo 1. Todas as tecnologias atuais trabalham o cimento e o tijolo. O silício bioativo atua no vergalhão. Por isso ele não compete com aditivos já consolidados, e sim potencializa o quanto a agroindústria, o extensionista e o nutricionista conseguem transformar mineral circulante em osso.

    Da sílica inerte ao ácido ortossilícico

    A relação entre silício e osso não é nova. Relatos de 1972 a 1974 já mostravam que a retirada forçada de silício da dieta de aves levava a deformidades ósseas. André separa, porém, dois conceitos: a dose mínima para evitar doença carencial e uma dose acima do mínimo, sem ser suprafisiológica, capaz de promover ativação metabólica máxima. O gargalo sempre foi a entrega. Na forma natural, presente na soja, no farelo de milho e na sílica usada nas fábricas de ração, o silício está ligado ao oxigênio, não sofre hidrólise no líquido intestinal e é praticamente inerte.

    A virada veio de uma empresa belga da linha de cosméticos e suplementação humana. O processo industrial faz a mesoporização da sílica, tornando a molécula porosa para maximizar o contato com os líquidos intestinais e forçar a hidrólise. O resultado é o ácido ortossilícico, com quatro grupos OH, e absorção entre 92% e 95%, contra 10% a 20% das fontes anteriores. O ácido ortossilícico já existia, mas em forma líquida, sem escala de produção, estabilidade logística ou viabilidade econômica. Em humanos, a tecnologia já tem estudos com redução na progressão da osteoporose e ganhos em pele, cabelo e unhas. Na Europa, as validações em aves somaram quatro blocos de estudo com mais de 2.000 animais.

    No organismo, o silício bioativo acelera a maturação de fibroblastos e osteoblastos, que se convertem em tenócitos e osteócitos, aumentando a síntese de colágeno tipo 1 e a deposição mineral. Também ativa glicosaminoglicanos e proteoglicanos, ligados à retenção hídrica articular.

    Poedeiras: casca, reserva mineral e longevidade

    Em poedeiras, os objetivos são longevidade, reserva mineral óssea e qualidade de casca. A membrana da casca também é composta por colágeno tipo 1, e é nela que o cálcio, ligado ao CO2, é depositado para formar a casca. Nos usos a campo, a suplementação reduziu entre 25% e 45% o número de ovos trincados. A resposta óssea aparece rápido: cerca de 40 dias após a inclusão, provas de resistência óssea e peso de cinzas já mostram diferença significativa.

    André compara a reserva óssea da poedeira a uma poupança, em que osteoblastos depositam e osteoclastos sacam mineral. Ao acelerar a maturação dos osteoblastos, a ave compensa melhor esse balanço e acumula mais hidroxiapatita. A recomendação é de 150 g por tonelada, idealmente desde o D0, para formar um plantel com estrutura óssea mais robusta e mitigar a osteoporose após as 50 semanas. Em situações específicas, a dose nutracêutica sobe para 300 g por tonelada. Em uma avaliação de desempenamento dorsal com 300 g, as fotos mostraram empenamento visível em três semanas.

    Matrizes pesadas: locomoção, eclosão e retorno

    No matrizeiro, o desafio relatado por todos os técnicos ouvidos por André é locomotor: animal pesado, em ciclo reprodutivo, com rompimento de ligamento e artrite. Em um trabalho com 40 mil matrizes, 20 mil tratadas e 20 mil no controle, o produto gerou ROI de 13 vezes, com 2% a mais de pintinhos e 35% menos ovos trincados. A explicação passa novamente pelo colágeno tipo 1, presente nas membranas do ovo, que participam das trocas gasosas e da prevenção de microtrincas.

    Frango de corte: reovírus e resultado no abatedouro

    O silício bioativo não é viricida. O ponto é outro: o reovírus causa patogenicidade em ligamentos e articulações, exatamente onde o produto reforça a estrutura de colágeno. Com o local de ataque mais bem estruturado, a progressão da lesão desacelera e a ave chega em melhores condições aos 38 a 42 dias. Em aves desafiadas com cluster patogênico de reovírus, na dose nutracêutica máxima de 450 g por tonelada, o resultado foi 4% a mais de ganho de peso, redução significativa de pododermatites e inchaço de coxim plantar, e 9% a mais de peso de peito. Um segundo estudo, que infectou apenas metade das aves de cada grupo para simular a transmissão a campo, repetiu os resultados de ganho de peso e condenação. André é enfático: o produto não substitui vacinação, controle e diagnóstico da cepa circulante. Ele vem para somar.

    O que muda na formulação e no manejo

    A inclusão é via ração e em baixa dose, graças à biodisponibilidade de cerca de 90%. Sobre reduzir fosfato da dieta, André não promete receita de bolo. Nas Filipinas, a dose de vitamina D foi reduzida pela metade com manutenção dos benefícios, mas cada agroindústria tem sua dieta e seus fornecedores, e a oscilação na qualidade do calcário já interfere na qualidade óssea. Para quem quiser testar, a orientação é partir da dieta padrão em centro experimental e reduzir 5%, 10% e 15% com a inclusão do produto, buscando o limite.

    Para validar a campo, o protocolo é direto. Em poedeiras e matrizes, um lote de 50 semanas ou mais durante 60 dias. Em frango de corte, dois lotes, cerca de 90 dias, em um grupo de produtores com ração dedicada. No custo-benefício, a simulação feita com os piores preços de frango, pintainho e ovo dos últimos 12 meses e euro a 5, 6 e 7 reais apontou, no pior cenário, ROI de 12,5 em matrizes, 3,3 em frango de corte com 150 g, 2,6 com 450 g e 2,2 em postura considerando apenas a redução de ovos trincados.

    Ouça o episódio completo

    A mensagem de André Pratto para nutricionistas e para toda a cadeia é abrir a mente: o próximo salto em qualidade óssea não depende de quanto mineral entra na galinha ou no frango, e sim de onde esse mineral será depositado. No episódio do podcast O Aviário com a Me. Gabriela, ele detalha os estudos, as doses por fase e o raciocínio fisiológico por trás da tecnologia.

    🎙️🐔 Silício bioativo: a matriz óssea que faltava na avicultura. Ouça agora nas principais plataformas de áudio e vídeo.

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