Suinocultura

    Sucessão na Suinocultura: Como Três Gerações Transformaram uma Granja de Subsistência em Operação Industrial

    23 de julho de 2026

    Jean Marcelo Fontana revela os bastidores da mão de obra, da sanidade e do legado que sustentam a suinocultura familiar no Rio Grande do Sul

    Sucessão na Suinocultura: Como Três Gerações Transformaram uma Granja de Subsistência em Operação Industrial

    Em um episódio especial de Dia do Suinocultor, o Suinocast recebeu Jean Marcelo Fontana — Médico Veterinário, Produtor Rural e Vice-Presidente da ACSURS — para uma conversa densa sobre o que realmente sustenta uma granja de suínos ao longo de gerações. Mais do que genética, nutrição ou tecnologia, Jean é categórico: o fator decisivo é a gestão — de pessoas, de sucessão e de risco.

    De Produção de Subsistência à Suinocultura Intensiva

    A história da granja começou com o avô de Jean, em uma produção que "nem poderia ser chamada de cultura", segundo o próprio entrevistado — era subsistência pura, com três a cinco matrizes no que se chamava, na época, de "chiqueirão de porco". O pai de Jean, apaixonado por suínos desde criança, acordava na madrugada para acompanhar partos e sonhava com uma granja moderna, de produção intensiva. No fim da década de 1970 e início dos anos 1980, esse sonho se concretizou com a construção da primeira granja da família.
    Hoje, Jean representa a terceira geração à frente do negócio — um processo que, segundo ele, não tem nada de automático. "É honrar um legado que a gente tem, que a gente tem a obrigação de seguir", resume, ao explicar por que a paixão do avô e do pai se tornou o combustível que sustenta a operação até hoje.

    Mão de Obra: o Maior Desafio da Suinocultura Segundo Pesquisa Própria

    Jean cita uma pesquisa que ele mesmo conduziu há cerca de três anos sobre os desafios atuais e futuros da suinocultura: 28% dos entrevistados apontaram a mão de obra como principal gargalo, e 24% citaram a sanidade. Juntos, os dois temas somam mais da metade das preocupações do setor — e, segundo Jean, não são excludentes: a produtividade e a seriedade da operação estão diretamente atreladas à qualidade da equipe.
    Na prática, a granja da família opera com cerca de 40 a 45 funcionários, variando conforme a época do ano. Desse total, 15 são trabalhadores estrangeiros — um dado que Jean trata com surpresa positiva. "Eles são muito comprometidos", afirma, destacando que a seleção e retenção de mão de obra qualificada é hoje um dos maiores gargalos de granjas com estruturas mais antigas, mais dependentes de trabalho manual.

    Diversidade na Granja: Gestão de Equipes Multiculturais

    Um dos pontos altos da conversa é o relato sobre a diversidade cultural dentro da operação. Jean descreve uma granja com cubanos falando espanhol, indígenas falando português, além de trabalhadores de origem polonesa e alemã — uma combinação que ele chama de "festa étnica". A comunicação, no início, depende até de tradutores automáticos no celular, mas se resolve naturalmente com o tempo: funcionários mais experientes acabam funcionando como tradutores informais para os recém-chegados.
    Jean destaca ainda a importância de cuidar da estrutura de acolhimento — moradia, escola para os filhos, atendimento de saúde ágil em municípios pequenos. Para ele, esse cuidado é o que garante o comprometimento e a gratidão de uma mão de obra que, muitas vezes, chega ao Brasil já com formação superior em suas áreas de origem, incluindo advocacia e contabilidade.

    Produção Própria de Grãos: de 10% a 80% da Demanda

    Outro eixo estratégico da operação é a produção própria de grãos. Há alguns anos, essa produção representava apenas 10% da necessidade da granja. Ao longo do tempo, a família investiu na ampliação da área agrícola própria — um movimento que se intensificou após um tornado, em 2017, que destruiu parte da estrutura da propriedade, mas também abriu espaço para reconstrução e expansão. Hoje, a meta é chegar a 80% da demanda de grãos suprida internamente, reduzindo a exposição à oscilação de preços de commodities como milho e soja.
    Jean explica que, mesmo sem desembolso direto de caixa nesse modelo — já que existe um custo de oportunidade da terra usada para grãos em vez de outras culturas — a estabilidade proporcionada pela produção própria funciona como "uma carta na manga" nos momentos de pico de preço dos insumos.

    O Papel do Veterinário Dentro da Granja

    Formado em Medicina Veterinária, Jean é honesto ao dizer que a atividade que menos exerce, no dia a dia, é justamente a clínica veterinária tradicional. Sua rotina é dominada por gestão de pessoas, de matéria-prima, de estrutura e de processos — uma realidade que, segundo ele, a graduação dificilmente prepara o profissional para enfrentar.
    Esse é um ponto que Jean reforça especialmente para os estagiários que recebe todos os anos na granja: a formação acadêmica tende a ser ampla, mas pouco aprofundada nas competências que o mercado realmente cobra — gestão de pessoas, de matéria-prima, noções básicas de infraestrutura. "Eu queria sair sabendo tudo de tudo. Saí com uma decepção do tamanho do mundo", relembra sobre sua própria formatura.

    Sucessão Familiar: Um Processo, Não um Evento

    Talvez o ponto mais denso da conversa seja o relato de Jean sobre o processo de sucessão em si. Ele é claro ao dizer que trabalhar em uma empresa familiar já é desafiador — e que o choque de gerações torna esse desafio ainda maior. Depois de estudar fora, como fizeram os filhos da geração de seus pais, o retorno ao negócio da família vem carregado da vontade de "abraçar o mundo" e ocupar espaço rapidamente — algo que esbarra na experiência e na cautela de quem construiu o negócio do zero.
    "Em algum momento se começa a questionar: será que eu estou capacitado para assumir o negócio?", relata Jean sobre o próprio processo interno de amadurecimento. Ele descreve que a virada acontece quando o sucessor passa a entender a lógica de quem já está no comando — e, a partir daí, consegue estabelecer estratégias para ocupar seu espaço de forma gradual, sem ruptura.
    Ao final da conversa, Jean reforça uma mensagem que resume bem o espírito do episódio: o orgulho de ser suinocultor não é sobre números isolados, mas sobre produzir alimento, gerar renda e qualidade de vida para dezenas de famílias — a sua e as de todos que trabalham na granja.

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